Morar fora: o estopim

Morar fora e o estopim da decisão
Foto: Pixabay

Porque você precisa de um motivo para explodir e partir.

Fomos educados para criarmos raízes. Estudar, trabalhar, namorar, casar, ter filhos, comprar uma casa ou apartamento financiados em 35 anos, fazer carreira, não pular de galho em galho e, um dia e se a previdência permitir, se aposentar. Embutiram essa linha de tempo, de acontecimentos e de fatos na nossa mente desde sempre e os ousados que resolvem não seguí-la são logo considerados “um doidão que não dá certo em nada” ou “uma louca sem juízo que nunca vai ser alguém na vida”.





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Somos Diferentes

Ainda bem que não somos todos iguais e que não ligamos muito para o que os outros dizem e pensam de nós. Sim, estou falando de nós que resolvemos morar fora. Se fôssemos iguais aos demais, estaríamos no mesmo lugar onde estivemos por muito tempo, extremamente preocupados em não colocarmos o pé para fora daquela linha que disse ali em cima. Sei lá, já disse que nós que moramos fora não somos melhores do que ninguém, mas somos diferentes da maioria e a cada dia que passa isso se confirma.

Se a camisa está amassada, o cabelo mal cortado, o chinelo preso por um preguinho, o tênis com silver tape, a barba por fazer, a unha sem esmalte, a roupa não combina…POUCO IMPORTA. Aprendemos morando fora, que o conforto vale mais que o visual e já nem achamos tão estranho aquela americana que veste saia longa com moletom e sandália franciscana com meia branca. Aqui fora as pessoas não dão muita bola para isso e nós nos habituamos rapidinho com isso. Conforto é a palavra de ordem e vou confessar: nós adoramos ficar longe da linha e não seguir padrão nenhum.

Estamos Mudando

Talvez nós não consigamos perceber, mas estamos mudando. De pouquinho em pouquinho, morar fora nos fez mudar nossas prioridades, nos tornou esquisitos, nos fez dar valor ao dinheiro e não ter coragem de pagar muito caro para dormir, porém nos fez perceber que uma boa mochila nunca é tão cara, assim como aquela jaqueta The North Face que lhe protegeu do vento e da chuva e pode ser considerada o melhor produto adquirido em anos. Cabelo colorido não nos impressiona, tatuagem não faz diferença e o que importa são as pessoas. Nos tornamos mais humanos, não sei explicar direito.

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O Estopim

Voltando ao título desse texto, para passarmos por tudo isso que relatei, tivemos um estopim. Todos nós. Mas que diabos é um estopim Cláudio?! Eu explico. Estopim é aquele fiozinho que faz a carga de explosivos ir para os ares. É o fator que desencadeia uma série de outros acontecimentos.curta-fanpage É aquele pezaço na bunda que você levou do namorado, é a demissão do seu trampo que você jamais imaginou que poderia acontecer, é o fim da sua banda, é escapar com vida e sem um arranhão de um acidente grave, é terminar a faculdade e não saber o que fazer, é sentir que não se encaixa onde você está, é se irritar com a política, é aquele livro que lhe fez pensar o mundo de outro jeito ou o filme emocionante que conseguiu fazer a sua alma de viajante despertar.

São tantos motivos, tantas coisas e acontecimentos que podem lhe servir de estopim, que quando ele acender acredite: você saberá que é hora de partir. Pode ser que ele nunca acenda, pois somos diferentes uns dos outros, mas cabe lembrar que se ele acender e explodir, você deve  aproveitar a força da explosão e não esperar a poeira baixar, sabe por quê?! Porque se a poeira baixar e você não aproveitar o deslocamento de ar da explosão, o desconforto que ela lhe trouxe e os ferimentos que por ventura tenham surgido, pode ser que o próximo estopim nunca seja aceso e você tenha perdido uma grande oportunidade. Ou melhor, você tenha perdido A CHANCE DA SUA VIDA.

Queremos Poeira

Desperdiçar oportunidades não é muito a praia de quem tem sangue no olho. Não é muito o perfil de quem, na raça e na coragem, resolveu que passar um tempo (ou a vida toda) fora era o ideal. Se você ainda não chegou em outro país, talvez nunca tenha pensado nisso, mas nós que aqui estamos não temos o costume de esperar as coisas se acalmarem. As coisas nunca se acalmam. Aliás, o que nós mais fazemos é vento. Queremos poeira, nos acostumamos com o desconforto, estamos sempre dispostos a trabalhar numa coisa que não dominamos, entregamos pizza se for preciso, nos viramos com o inglês e depois de um longo dia ainda damos uma passadinha no pub, tomamos aquela cervejinha antes de ir para casa e amanhã tudo recomeça. É canseira, é correria. É a vida.

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Todas as manhãs podem ser consideradas O GRANDE DIA DAS NOSSAS VIDAS. Claro, a coisa que mais nos tira o sono é estagnarmos, é pararmos de viajar, é perdermos o tesão em assistir um pôr do sol na grama de um parque ou até mesmo de recusarmos um estágio na universidade. Todos os dias são muito importantes e morando fora isso parece fazer mais sentido. Talvez hoje seja o último dia do cara que divide apartamento com você, talvez agora de tarde você já não esteja mais no seu trabalho habitual, talvez hoje a noite você passe por um perrengue e talvez amanhã seja um dia de despedida. Morando fora não temos certeza de nada, muito menos do amanhã, por isso o hoje é levado tão a sério por todos nós.

Aproveite a Explosão da sua Vida

Se a sua vida está prestes a explodir ou já explodiu, não perca a chance e aproveite a propulsão da explosão. Não jogue fora esse estopim, não deixe de valorizá-lo. Sinta a dor, mas não deixe que ela acabe com você. Chegue mais longe, vá em frente, pare de ter medo e achar que morar fora é coisa de maluco. Maluco é continuar nessa vidinha, chorando por quem não lhe ama, querendo encontrar respostas sobre os motivos da sua demissão, ficar remoendo as questões que fizeram a sua banda dar um tempo, continuar lamentando o acidente grave que você sofreu e não entendê-lo como uma segunda chance, perder a vaga na seleção do mestrado, é ser triângulo e querer, por teimosia, se encaixar no quadrado, é esquecer das lições que aprendeu livro que leu, é deixar a emoção do filme passar.

Pegue suas feridas e siga em frente. Permita que elas se tornem cicatrizes. Coloque um curativo e se jogue.

E aí?! Quando nos encontraremos por esse mundão?!

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*Cláudio Abdo publica textos sobre a experiência de morar fora todas às segundas e quintas aqui no site Vagas pelo Mundo.