Morar fora: o mesmo mar, diferentes travessias

Morar fora, mesmo mar, diferentes travessias
Foto: Pixabay

Nossas histórias são parecidas, mas cada um faz a travessia do seu jeito.

O mundo possui sei lá quantos mares, sei lá quantos países, sei lá quantos bilhões de pessoas. Cada uma dessas, incluindo eu e você, recheados de diferentes sonhos, objetivos, vontades, desejos e querendo loucamente encontrar a felicidade. Nessa de “encontrar a felicidade”, nos rendemos aos apelos de uma marca e compramos um produto, viajamos sei lá quantos quilômetros para encontrar o nosso amor, praticamos um esporte estranho, colecionamos tampinhas de garrafa, papeis de carta, bolachas de cerveja, imãs de geladeira ou selos. Não vejo de outro jeito e tudo isso não deixa de ser a maneira como cada um busca a felicidade.

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O Mesmo Mar

Imagine que estamos todos em uma ilha, uma grande ilha. Nela, alguns vão encontrar a felicidade e conseguirão viver plenamente sem jamais perguntar, ou sequer pensar, “onde esse monte de água pode me levar”. Outras porém, irão questionar se existem outras ilhas, se não é possível pegar um barco e ir além, se só existe um idioma, um tipo de povo entre tantas outras perguntas que vão surgindo ao longo da vida.

É justamente aqui que vai começar a “sessão perguntas”, voltaremos para aquela fase de quando ainda éramos crianças e queríamos saber tudo perguntando sem parar. Entenderemos que o mar que cerca a ilha é o mesmo para todo mundo e que, para muitos, as ondas dele podem ser a maior barreira da vida ou apenas um meio, uma ferramenta que, bem utilizada, pode servir para nos apresentar um novo mundo.

Diferentes Travessias

Mesmo que todas as pessoas tenham a mesma oportunidade, cada uma vai usar a sua de maneira diferente. Penso isso porque se fosse o equipamento, todos os guitarristas que tocassem com uma Fender Stratocaster seriam o Eric Clapton, e não são. Quantas pessoas conseguiram fazer a travessia, remar com o seu barquinho até chegar do outro lado ou em outra ilha e viram que a felicidade não estava lá?!

Pois é. São objetivos diferentes, são motivações diversas, são vidas, momentos e realidades que não podem, e nem devem jamais, serem comparadas. “Ah, mas eu conheço um cara que foi morar no Japão e não quer nunca mais voltar” ou “e o fulano que foi morar no Reino Unido e odiou”. Claro, temos por hábito colocar todos num mesmo tacho e achar que as pessoas são iguais, que pensam da mesma maneira e que a felicidade para um, é a mesma para o outro. Ledo engano. Não é nem nunca foi.

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Não é O Lugar, é Você

Paris é maravilhosa certo?! Eu não acho. Não pelo lugar nem por conta da Torre Eiffel, mas por mim. Quando tive a oportunidade de lá ir, não curti. Ok, você deve estar pensando: “nossa, o cara foi para Paris e não gostou?” – e o cara aqui lhe responde: sim, eu fui para Paris e por mim não volto nunca mais. Mas a capital francesa talvez seja a menos culpada, prefiro colocar a culpa em mim. Talvez não fosse o momento ideal para eu ir, talvez ainda não estivesse preparado para pisar na cidade luz.

Vivo em Portugal há dois anos e amo. Mas conheço muita gente que veio para cá, inclusive para a cidade que eu moro, e odiou. Conversando com essas pessoas percebi que na realidade não é o país e muito menos a cidade, somos nós, é você, sou eu. A ilha, aquela onde todos nós estamos, pode ser o lugar mais maravilhoso do mundo ou o pior lugar que existe na face da terra. Mas que culpa tem a pobre ilha?!

Diferentes Experiências

Morar fora pode ser a melhor ou a pior coisa que aconteceu ou vai acontecer na sua vida. Pouco importa se o seu destino é a Austrália ou o Haiti, é irrelevante se você vai ou foi para Moçambique ou para a Islândia. Importa, e muito, o que lhe fez partir, como você se sente e como você vai encarar as diferenças desde onde você saiu até onde você vai chegar. Nem estou falando só de coisas sensíveis e aparentes como a língua e o clima, estou falando da sua história, da bagagem cultural que carrega consigo e das experiências que fazem você ser quem você é.

Se você partir ou chegar de peito aberto, com o coração preparado para “o diferente”, suas chances de adaptação e de “se dar bem” aumentam consideravelmente. Agora, se você é mais inclinado para o lado conservador, encarar as diferenças poderá ser (e será) o maior pesadelo da história da sua vida. Nem precisa ir muito longe de casa para isso acontecer, vá para a cidade vizinha da sua e pronto, o martírio começa.

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Não Existe Receita

Se para encontrar a felicidade existisse receita, remédio para depressão não venderia tanto. Quantos livros sobre a felicidade existem?! Quantas “receitas” já foram ensinadas?! Quantos supostos bons exemplos nós temos de pessoas felizes?! É a velha mania que temos de querer colocar a sua e a minha vida na mesma bacia. Não dá. Não é assim que a vida funciona.

Com o tal do “morar fora” é a mesma coisa. Você não precisa sair da sua zona de conforto para ser feliz, porém eu também não preciso ficar no mesmo lugar o resto da vida esperando que a minha curiosidade para saber como é o mundo passe. Não vai passar assim, do nada.

Olhar e Enxergar

O mar pode até ser o mesmo, mas a travessia vai depender de cada um de nós. Muitas pessoas somente olham para as coisas, outras preferem enxergá-las. O globo terrestre, aquele que nos foi apresentado ainda nas aulas de geografia lá na escola, terá diferentes significados para cada um de nós. Alguns só olham e vêem uma simples bola, outros enxergam países, culturas, pessoas e coisas diferentes.

Uns vão ficar e outros vão partir, uns vão se contentar em ficar na ilha para sempre e outros vão preferir passar a maior parte do tempo num barquinho remando sem parar e não existe problema algum nisso. O mar pode até ser o mesmo, mas a travessia não. Simples e complexo, fácil e complicado. Cada um do seu jeito, cada um com as suas dores e seus amores.

A travessia só depende de você e mais ninguém. E aí, quer fazer dela a melhor ou a pior coisa da sua vida?!

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*Cláudio Abdo publica textos sobre a experiência de morar fora todas às segundas e quintas aqui no site Vagas pelo Mundo.