Morar fora: medindo dores, pesando amores

Morar fora e medir e pesar o tempo todo
Foto: Reprodução BioActive Foods

A régua da dor e a balança do amor estarão sempre no limite.

A experiência de morar fora é única e individual. Por mais que quem já esteja do lado de cá, como eu e tanta gente conte como é, o sentimento, as sensações, as dores, os amores, as conquistas e os perrengues serão seus (só seus). Cada caminho é percorrido de forma diferente e a história da sua vida precisa, e será, escrita por você e por mais ninguém. É uma responsabilidade do tamanho do mundo, mas lhe tornará outro ser humano.





Medindo Dorescurta-fanpage

A sua dor, a sua perda, a sua saudade, a sua falta, a sua coragem, a sua vontade e outras tantas coisas são suas. Assuma e aceite isso. A dor de estar longe dói em você de um jeito único, em mim a dor pode ser maior ou menor, mas não existe um padrão, uma fórmula. Não é possível comparar. Morando fora tive a infelicidade de perder amigos e a perda foi difícil, porém em outras épocas ou em outros momentos, talvez fosse diferente. A intensidade do tal “morar fora” é complicada.

Durante muito tempo eu tentei colocar perdas, dores e saudades lado a lado com a de outras pessoas. Infeliz, jamais cheguei a lugar algum. Claro, o tempo que eu moro fora me permitiu perceber que são significados e sentimentos que não devem serem comparados. Cada um com a sua história, cada qual com o seu repertório. Julgar sentimentos é, talvez, a coisa mais injusta que podemos fazer, mesmo que sem perceber.

A régua da dor que você adquiriu não está a venda em outro lugar. Única, ela é sua e de mais ninguém. A minha também é só minha e, por mais que tentemos emprestar ou colocar ao lado de outras, elas nunca se encontram, a medida nunca bate. A conta não fecha. São diferentes, são únicas, é sua, é minha. Foram alimentadas por momentos, situações, histórias de vida, acontecimentos diferentes e não podem ser comparadas, seria um pecado.

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A balança do amor não pesa as coisas do mesmo jeito. A falta que o seu amor faz, desde que você chegou do lado de cá, não pode ser pesada. Assim como a falta que os meus pais me fazem. Além de serem sentimentos diferentes, o amor que você sente não consegue ser comparado. Mesmo que a balança do amor esteja regulada, por estar sempre no limite, perde com frequência a referência e complica o meio de campo.

Quando a gente pega as nossas coisas e parte, nossos sentimentos são colocados em uma máquina de centrifugar roupas. Eles se misturam, entram em colapso. Batem de um lado para o outro, confundem-se, difundem-se, unem-se. Por vezes, nós que estamos morando fora choramos e nem sabemos direito o motivo. Costumamos responder, quando questionados, que estamos chorando “por tudo” ou “por nada”. Não dá para listar, não dá para especificar.

Intensidade no Nível Máximo

Por aqui a vida é tão intensa, que uma simples oportunidade de entrevista de emprego se transforma num turbilhão de sentimentos e emoções que, quando somos admitidos, nem acreditamos. O mesmo acontece quando a resposta é negativa. Lembro de sentir o coração batendo na garganta quando consegui o meu primeiro emprego aqui do outro lado do oceano. Não pagava muito, não era num lugar prestigiado, mas era uma conquista minha, uma vitória para um estrangeiro, um baita feito para quem chegou sem conhecer ninguém e nem sequer tinha indicação.

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No Limite

A gente que mora fora, vive no limite. No limite da saudade, no limite da falta, no limite da vontade de rever os amigos, no limite da ânsia de dar um abraço em quem amamos. A régua da dor só entrega grandes medidas, a balança do amor parece estragada. Contamos os dias, fazemos contas por conta do fuso horário, o Skype é mais importante do que qualquer coisa. A distância nos aproxima, a falta nos fortalece, a saudade é energético e o futuro parece um gigante de 10 metros de altura que precisa ser desafiado e vencido.

Se nós vamos vencer, não sabemos. Se nós vamos aguentar a saudade, também não. O que sabemos, de certeza, é que viemos para cá para colocar em cheque os nossos medos, para esmagar a nossa angústia de viver longe de quem amamos e colecionarmos vitórias, derrotas, conquistas, perdas, dar boas risadas e chorar litros de lágrimas. Morar fora é assim.

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*Cláudio Abdo publica textos sobre a experiência de morar fora todas às segundas e quintas aqui no site Vagas pelo Mundo.