Morar fora: você precisa provar para ser aprovado, o tempo todo

Morar fora e lidar com preconceitos
Foto: Reprodução Pixabay

Dedico este texto para todos que moram fora e já se depararam, de alguma forma, com o preconceito.

Morar fora não é um mar de rosas, nem de longe, muito menos de perto. Há uma constante provação em jogo, você precisa quebrar códigos sociais, é forçado a derrubar muros e desconstruir pré-conceitos que você nem sabia, ou não se lembrava, que existiam. Quando morar fora é uma realidade para você, o limite mora na casa ao lado e sua nova profissão será equivalente a de um piloto de fuga ou de globo da morte, sem chances para o erro. Você vive em um julgamento constante e nunca, nunca deixará de ser um estrangeiro, passe o tempo que passar.





Sendo Estrangeirocurta-fanpage

Talvez a coisa mais injusta que exista na vida seja o preconceito. Apesar de ser apenas mais uma daquelas “coisas da vida”, o preconceito serve para mostrar o quanto nós seres humanos somos toscos, atrasados e permite, inclusive, um questionamento quanto a nossa racionalidade. Digo isso porque quando você se torna um estrangeiro, por opção ou obrigação, você carrega uma história, um repertório de acontecimentos que lhe fizeram chegar onde você está. Porém, para além e enfrentar o novo, que já é difícil pra burro, você vai ter que bater com a cara no pré-conceito que as pessoas já tem sobre você. Sim, aqui fora muitas vezes pouco importará a sua conta bancária, a cor da sua pele, sua formação ou qualquer coisa que possa justificar a atitude da imbecilidade humana em julgar o outro.

A Voz

Morando fora você vai precisar alugar um apartamento, por exemplo. Porém, além de ser uma tarefa burocrática e um tanto quanto chata, você ainda poderá ouvir que a imobiliária “não aluga para brasileiros” só por ouvir a sua voz ou o seu sotaque e isso lhe chegará como um soco no nariz. Vai sangrar, vai doer, os olhos se encherão de lágrimas e o motivo disso tudo é a uma pura e simples constatação de que você está sofrendo preconceito. Esse sentimento vem misturado com aquela sensação de impotência. Você se sentirá a pior pessoa do mundo, mas com o tempo vai perceber que existem pessoas muito piores do que você, pois elas carregam o preconceito junto delas e, por isso e só por isso, são as piores pessoas que você encontrará aqui do lado de fora.grupo-FB

Gente Boa e Gente Ruim

Quando você passar por um julgamento só por conta da sua voz, por exemplo, você vai começar a equacionar tudo. Depois de algum tempo você perceberá que a vida é assim e que, por vezes, Deus ou sei lá quem, coloca alguns imbecis no nosso caminho para nos tornar pessoas mais fortes. Não encontro outra explicação, até porque sentindo na pele o “ser estrangeiro”, dou muito mais valor para pessoas que cruzaram o meu caminho e simplesmente me trataram como ser humano, independentemente de onde eu vim, de como eu me visto, minha religião ou de como eu falo. O resumo disso é que se não fossem algumas pessoas ruins na nossa vida, talvez nós não seríamos capazes de valorizar as tantas outras pessoas que são maravilhosas, fantásticas e que nos fazem ter fé na humanidade.

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Uma Luta sem Fim

Combater esse preconceito, essa ideia que já fizeram de nós sem nem nos permitir uma apresentação, é um ideal para todos nós que vivemos fora do nosso país. Derrubar muros, construir pontes, possibilitar encontros, oportunizar bons momentos, provar que nós não nos encaixamos naquilo de ruim que fez nascer o preconceito. Triste, mas real. O preconceito existe e algumas pessoas, infelizmente, jamais conseguirão compreender o outro. A empatia não é aprendida na teoria, somente na prática. Mais do que julgar e apontar o dedo, se colocar no lugar do outro é (ou deveria ser) regra geral no mundo globalizado que vivemos.

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Tomar Ar e Seguir em Frente

Ouvindo histórias, vivenciando de alguma forma a babaquice do preconceito, seguimos em frente. Choramos, respiramos, erguemos a cabeça e fazemos questão de lembrar, de alguma forma, que se não fosse pela nossa coragem nós nunca chegaríamos e nos manteríamos do lado de cá. Então, por mais difícil, por mais dolorido, por mais incompreensível e absurdo que seja sofrer ou ver o preconceito, seguimos em frente. Seguimos em frente para quebrarmos o ciclo, para sermos os baluartes do fim do pré-conceito e servirmos de escudo para os que, no futuro, queiram ou precisem atravessar algum continente e começar a vida em outro canto qualquer não precisem passar por isso. Que doa na gente para que não doa nos que ainda não vieram, mas que um dia isso tudo não passe de história e de algo que não existe mais e está trancado lá no passado.

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*Esse texto nasceu de um relato absurdo ao qual o autor teve, infelizmente, a oportunidade de ouvir.

**Cláudio Abdo publica textos sobre a experiência de morar fora todas às segundas aqui no site Vagas pelo Mundo. 



  • Eliana BrasilSampa

    Oi, Ana Luiza! Meu marido quer mudar-se para os Estados Unidos há anos, mas eu sempre adio a decisão. Agora, com o Brasil nessa crise, está difícil convencê-lo a ficar. Parabéns pela estrutura emocional. Eu não sei se conseguiria suportar. Tenho medo de ser maltratada no exterior…

  • Fafá Póvoas

    Não podemos esquecer também que brasileiro costuma ser muito preconceituoso. Seria hipocrisia de nossa parte achar que o preconceito só existe do outro lado do oceano. Aqui no Brasil o preconceito é latente, por exemplo com portugueses. “Portugal é um lixo” Portugal é pobre” “Português é burro” e por aí vai…

  • Vagas pelo Mundo

    Muito obrigado pelo comentário Ana. Muito obrigado por contar um pouco da sua história e dificuldades que nós, “estrangeiros”, enfrentamos quando resolvemos encarar o mundo de frente.
    Agradeço o comentário e a disponibilidade em ler o que escrevi.
    Boa sorte e siga em frente porque no fim, tudo vai dar certo!
    Grande abraço!

  • Ana Luiza Malagris Muñiz

    Ótimo texto! Realmente traduz o mesmo sentimento que tenho… no meu caso, por ter me casado com americano, tem gente que pensa que me casei apenas pelo tão sonhado green card… por mais que eu saiba que a maioria não pensa assim, mas eu sinto como se eu sempre vou ser “mais uma brasileira” que se casou com gringo. Apesar de ser branca aqui descobri que eu não sou!! Branco é americano eu sou é hispânica… o que interessa é a origem. E pelo fato de ser Brasileira pessoas falam comigo em espanhol como se eu não soubesse inglês e na verdade pensam que no Brasil se fala espanhol!! Rs Bom, são idiomas um pouco relativos mas longe de serem parecidos ou iguais. Enfim, é um desafio diário!! Que compensa pela minha família, que se não fosse por ela já teria voltado pro meu país… sem pensar!