Morar fora: o nosso Natal

O nosso natal e diferente
Foto: Reprodução Think360 Studio – Designer Prince Pal

Texto indicado somente para quem tem o coração forte.

Há algum tempo o nosso Natal era no calor, na casa em que passamos anos de nossas vidas, com nossos familiares. Atualmente nem damos muita bola para essa noite que, por vezes, era a mais importante do ano. Morando fora nós mudamos, nem sempre temos quem amamos por perto e a noite de Natal será passada no trabalho mesmo, com colegas que nem falam a nossa língua e com pessoas que, nem nos mais longínquos pensamentos, ousaríamos imaginar conhecer e dividir tal intimidade, não fosse o fato de todos estarmos longe de casa juntos e com uma fenda no peito. Que noite.curta-fanpage

Quando, por sorte, não estamos trabalhando, passamos o Natal com esses novos amigos. Seja um brasileiro perdido que ia passar sozinho e que convidamos para dividir a ceia conosco, pode até ser com aquele polaco que chegou agora ou com o canadense ou a australiana que nos apresentaram recentemente. É, de uns tempos para cá, as nossas noites de Natal realmente têm sido bem diferentes. Muita coisa mudou, nós mudamos, nos mudamos e os milhares de quilômetros que nos separam de pessoas tão amadas parecem dobrar de tamanho nessa noite. É uma distância sem fim. Que noite.





Presentes

Nem ligamos para os presentes, eles são impessoais. Claro que os recebemos com muito gosto, mas quem nos presenteia nem sempre nos conhece direito e prefere objetos que não são passíveis de erro. É uma garrafa de vinho, um cachecol escuro, um par de luvas ou uma touca. Tanto faz, porque para nós realmente o nosso maior presente seria ter a presença de quem amamos e que, por motivos diversos, a vida ainda não permite que a nossa noite de Natal seja celebrada com elas. Sem dúvida, uma ligação no Skype, um áudio no WhatsApp ou uma mensagem no Facebook de alguém que se lembrou de nós vale muito mais do que qualquer coisa.

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O Nosso Natal

Vai ter peru na nossa ceia, nós vamos dar um jeito de encontrar uma farofa, nos desdobraremos em mil para que a sobremesa esteja gostosa. O pinheirinho vai estar iluminado, talvez tenhamos alguns enfeites pela casa. Um ou outro Papai Noel pendurado em algum trinco. A mesa estará bem posta, os pratos, os talheres, os guardanapos. Porém, de uns anos para cá, na nossa casa também estarão mochilas, malas, tolhas molhadas penduradas no varal e o sofá será ocupado por alguém que preferiu ficar com a gente, mesmo sem ter tanta intimidade, para que a noite de Natal não doesse tanto no seu coração.

Depois da Ceiagrupo-FB

Depois da ceia trocaremos nossos presentes, nos abraçaremos, iremos ao Facebook ver se alguém se lembrou de nós. Com lágrimas nos olhos, nossos corações irão transbordar de saudade. Não estaremos tristes, pois é uma noite de celebração, mas estaremos saudosistas, emotivos e quando nossos familiares começarem a postar as fotos dessa noite nos daremos conta de que, mesmo distantes, a vida seguiu. Seguiu porque tinha que seguir. Eles estarão sem a gente, pensando na gente, assim como nós estaremos sem eles, pensando neles. Na foto deles nós não estaremos e nas nossas eles também não estarão. Que noite.

O Dia 25

Alguns de nós vai descontar a saudade num copo cheio da nossa bebida preferida. Depois da noite de Natal, o dia 25 será de contemplação, de pensamento longe, dia de ir sentir a neve no rosto, de pegar um vento de cortar, de dar uma caminhada pelo parque. Talvez seja um dos poucos dias do ano em que teremos folga e não precisaremos trabalhar, mas não conseguiremos ficar em casa dormindo. Nossos novos amigos estarão de partida, a casa ainda vai estar bagunçada, será necessário juntar as garrafas vazias, passar um pano na cozinha, lavar a louça e acender um cigarro na varanda depois disso tudo.

O nosso Natal tem sido diferente de uns anos para cá. Não é triste, mas é uma data em que, se pudéssemos pularíamos para que a dor da saudade não batesse tão forte. Sentimos o baque, damos aquela desanimada, mas não desistimos jamais. Morar fora é assim, é feito de altos de baixos, de alegrias e tristezas, de saudades e abraços apertados reservados para um próximo encontro. Claro que tudo isso elevado na décima potência e capaz de doer no coração mais duro e de estraçalhar no mais mole.

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Talvez nesse ano você não tenha a oportunidade de passar o Natal com a sua família, eis aqui um dos ônus de se morar fora. Porém, o que conforta é que a distância parece a melhor coisa que existe para aproximar, a saudade está aí para lembrar que o próximo encontro com quem amamos deve ser inesquecível. É nessa diferença, nesses antagonismos que a vida segue cheia de graça, de desafios, de medos, de ansiedades, de perdas e conquistas.

Com esse texto, desejo um feliz Natal e um ano novo cheio de realizações, de saúde e de possibilidades de encontros memoráveis, de abraços apertados, de fotos em que todos estejam juntos, de saudade deixada de lado por algum tempo e de bons momentos. Que assim seja!

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*Cláudio Abdo publica textos sobre a experiência de morar fora todas as semanas aqui no site Vagas pelo Mundo.