Mora fora: quem vai leva um pedaço de nós

Quem vai leva um pedaco de nos
Foto: Reprodução Pixabay

Assim como nós, quando viemos, que deixamos alguém despedaçado.

Quando viemos morar fora, deixamos para trás muita coisa. Saímos do emprego, cancelamos a academia, organizamos despedidas, encerramos o carnê na loja do amigo, pagamos o boteco onde fazíamos fiado, damos abraços calorosos de adeus, juramos reencontros, tiramos foto com quem amamos para que, na hora da saudade exagerada, nos sirva de tranquilizante. Quando deixamos as fronteiras que nos cercavam, despedaçamos e somos despedaçados.





Tudo é novidade

A despedida é, muitas vezes, uma novidade para muitos de nós. Não sabemos direito o que dizer, tentamos encontrar palavras que amenizem a nossa partida para que as pessoas que ficam, principalmente as de mais idade, não acreditem que aquele beijo envolto por lágrimas possa ser a última vez. Não basta que estejamos indo para o novo, tudo é novo, tudo. Ouvimos coisas que jamais imaginaríamos que nos seriam ditas e soltamos palavras que, até pouco tempo, nunca haviam sido pronunciadas por nós.

Do outro lado

Ao partirmos deixamos algumas pessoas com a sensação de que algo faltará na vida delas dali para frente, porém nós também partimos incompletos. No nosso novo país não está o nosso melhor amigo, a casa da avó não fica naquela rua sem saída de outrora e as pessoas que cruzam as nossas vidas são meros estranhos. Nos passa pela cabeça uma lista, uma receita do desespero que tenta encontrar respostas que ainda não existem: para onde devemos ir caso algo de ruim nos aconteça?! – pois é, não temos ainda uma base aqui que serve de apoio. Somos nós contra o resto do mundo.

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Novos encontros

A beleza da vida está no ineditismo diário que ela nos proporciona. Para uns isso pode ser desesperador, principalmente para os mais controladores, porém a novidade do dia a dia morando fora oportuniza encontros inimagináveis. São amizades que nascem na espera de uma entrevista de emprego ou na fila do banco, são olhares que se cruzam nas cadeiras do consulado ou no café de alguma grande cidade. Esses novos encontros dão ânimo, chegam e nos fazem lembrar que o mundo segue girando e que a vida não permite ensaios.

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Velhas amizades

Os amigos e familiares que nos amam darão um jeito de nos rever. Eles são sagazes e organizam a trip deles já nos colocando no roteiro. A emoção de saber que você ainda está vivo em suas memórias paralisa e traz alento, um sopro de calmaria na loucura do morar fora. Marcar o encontro na praça central da cidade que você agora vive, dar um abraço carregado de saudades parece o melhor antídoto para o veneno da distância. A conversa flui naturalmente, parece que a gente se viu ontem e isso é que é amizade, isso que é amor, uma prova de que não há distância que seja capaz de cortar os laços que foram construídos no passado.

A dureza da partida

O tempo, sempre ele, é muito cruel. Apesar de dar uma travada quando um reencontro desses acontece, ele tira o atraso pouco depois e quando nossos amigos ou familiares partem, levam um pedaço grande de nós. Logo a gente que se blinda tanto, que trava uma luta complicada para não se apegar. Mas quando quem veio nos visitar se vai, parece que nada disso adianta e a blindagem não segura a bala da saudade. O olho insiste em chorar, a saudade teima em sufocar. Quem vai leva um pedaço da gente em suas malas, nos faz pensar, nos deixa nostálgicos. Partidas e chegadas costumam fazer parte dos nossos dias desde que aqui chegamos, mas isso não significa que não sejamos capazes de sentir e de sofrer quando cada uma delas acontece.

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*Cláudio Abdo publica textos sobre a experiência de morar fora toda a semana aqui no site Vagas pelo Mundo. Volte sempre!