Morar fora: eu faço parte da estatística

Morar fora - eu faco parte da estatistica
Foto: Reprodução Pixabay

Sou da geração Y, tinha carreira próspera e mesmo assim resolvi partir.

Nasci em 1983, mais precisamente no dia 7 de março. Sou mais um representante da tal Geração Y, aquela que assistia Sessão da Tarde, que pegou a novelinha Malhação na época do Touro e do Cabeção. O tempo foi passando, vi meu irmão mais velho “ter carreira”, meu pai “ter carreira” e só um emprego a vida toda. Ouvia, com certa frequência, que devíamos sempre buscar estabilidade em nossas vidas, que pular de galho em galho não leva a nada e que só vagabundos e fracassados fazem isso.




A minha hora

Anos mais tarde, tinha chegado a minha hora de “fazer carreira”. Nós, da geração Y, fomos doutrinados a fazermos cursos que, supostamente, garantem o futuro de qualquer um como engenharia e medicina por exemplo. Nada de tentar sair do padrão, pois isso “não dá futuro”, então bora fazer cursinho pré-vestibular e dar um jeito de caprichar na bendita prova para ser aprovado em alguma universidade “de sucesso”. Éramos o futuro, éramos (e ainda somos) aqueles que iam mudar o mundo, que já tinham alguma consciência ambiental, somos os tais engajados quem sempre estão com um bom discurso na ponta da língua.

Claro, prestei vestibular para Engenharia Ambiental. Não satisfeito, insisti por longos quatro anos nisso, até que um dia entendi que aquilo não era para mim, não me servia e que a comunicação era a mais a minha praia, afinal de contas engenheiro não fala muito e eu sou um tagarela nato. Lá da Engenharia trago boas coisas comigo, seja a facilidade em fazer contas que aquilo me proporcionou ou o meu melhor amigo e compadre que faz muita falta e que só existe por conta desse tempo.

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Faz vestibular de novo, tranca engenharia, se matricula em Publicidade e Propaganda, muda de cidade (de novo), troca de universidade. Vida que segue, e seguiu. Três anos depois concluo o curso de Comunicação Social, fundo a minha própria agência de comunicação integrada (óóó que chique), faço uma pós-graduação, começo a dar aulas na universidade. Olha, e não é que depois de “estar perdido” eu tinha uma carreira?! Ah pois é. Tinha mesmo, trabalhava duro, atendia clientes, conquistava novos clientes, eram horas a fio, todos os dias, o dia todo. E eis que seis anos depois de formado e de agência, minha carreira já não me dizia muita coisa, não me fazia feliz. Eu estava estressado, cansado, insatisfeito. Ahhhh, e não ache que era por falta de ganhar grana, porque não era.grupo-FB

Como é lá fora?

Sempre que podia perguntava para quem estava voltando do exterior, após ter morado fora ou só passado um tempo, como havia sido a experiência e a resposta?! NUNCA VINHA. O que eu ouvia não era interessante, não continha detalhes, eu não conseguia saber mais sobre aquilo de “morar fora“. Foi assim durante muito tempo, até que compreendi que os detalhes e informações que eu tanto queria saber só me chegariam de um jeito: quando eu fosse atrás. E foi isso que eu resolvi fazer.

Estabilidade?! Não obrigado

Outra coisa que eu consegui compreender com o passar dos anos foi que eu não queria a tal estabilidade na vida, que para se ter uma “carreira de sucesso” é necessário abrir mão dos belos dias de sol para ficar sentado em um escritório, é ter estresse no talo, é dormir pouco, é passar cinco anos sem tirar férias, é casar no sábado e voltar ao trabalho na segunda-feira. Descobri também que acordar todos os dias bem cedo para fazer a mesma coisa me deixava agoniado, que eu podia mais, que eu queria mais. Claro que eu não posso reclamar da profissão de publicitário, pois talvez a única coisa que a gente não tenha seja rotina (em termos), mas quando essa porcaria de rotina chega, ela entra sem pedir licença e pouco se importa de você está ou não preparado para lidar com ela.

O “mais” que eu queria estava longe. A aventura da vida, seu ineditismo e novidade sempre me encantaram e, fascinado por isso, joguei tudo para cima e parti. Parti para um país que não era o meu, um país que eu sequer conhecia ou já havia visitado, que sabia muito pouco (ou quase nada) sobre ele. A vida parecia, depois da minha partida, começar a fazer algum sentido para mim.

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Vida fora

Morando fora eu mudei, descobri que a vida pode ser muito louca e interessante, que somos substituíveis, que a universidade que eu dava aulas vai continuar lá sem mim, que a empresa que eu fundei segue firme e forte sem que eu lá esteja. Ao mesmo tempo que saber disso dói, liberta. Liberta e é maravilhoso experimentar essa liberdade, é sensacional conviver com pessoas do mundo todo, viajar, não ter rotina, não ter a tal “carreira garantida”, ter que viver um dia de cada vez. Talvez eu tenha deixado de ser O FUTURO, para fazer o meu futuro pedrinha por pedrinha. Talvez eu tenha largado o garantido para não ter nada, mas e quem disse que eu queria ter?!

Olha, no fim dessa busca louca pelo ter eu tinha esquecido de ser, mas sempre é tempo de quebrar esse ciclo e voltar para o meu caminho. Um caminho que, sinceramente, dá medo e é cercado pelos mais diversos receios, mas que me faz sentir a vida, que me ajuda a afastar a rotina, que me ensina a cada dia e mostra que nos meus planos não estão perder um belo dia de sol, frio e céu azul em troca de uma carreira. Se isso vai dar certo eu não sei, se isso é certo pouco importa. Só sei que se der errado eu entro na casa da estabilidade, volto a ser um normal, mas carrego comigo a convicção e a certeza de ter, ao menos, tentado.

Moral da história

Eu não acredito que todos devam fazer o que eu fiz, mas também não serei o juiz que vai determinar que você não deve fazer. É de cada um, é uma decisão sua, uma escolha que, como tudo na vida, tem bônus e ônus. Para uns a vida boa está dentro da empresa, na mais perfeita normalidade, na garantia. Para outros não e eu me encaixo nessa categoria dos “outros”. A experiência de morar fora é individual e você pode vir e se dar bem ou chegar desse lado e se arrebentar. Tanto para se dar bem, como para se dar mal, você precisa ter preparo, pois vai lhe exigir muita maturidade, muita. E aí, de qual lado você está?!

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*Cláudio Abdo publica textos sobre a experiência de morar fora toda a semana aqui no site Vagas pelo Mundo. Volte sempre!