Morar fora: um pé lá e a vida cá

No comeco da vontade de se dividir ao meio
Foto: Reprodução Pixabay

Dá vontade, no começo, de partir-se ao meio.

Antes da gente partir, a nossa vida era igual a sua. Trabalho, estudo, namoro, aluguel, carro ou moto financiados, planos para casar, ter filhos, mudar de emprego, fazer uma faculdade, terminar o curso técnico, semanas longas e dias intensos. Sim, até que um dia, sabe se lá por qual motivo, resolvemos partir para nos encontrarmos. Pensamos, pesquisamos, nos jogamos e vamos morar fora.





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Saímos de uma vida louca, mas com uma certa rotina e sem muitas surpresas, para entrarmos, literalmente, de corpo e alma num novo mundo. Um mundo que não conhecemos, onde os olhares das pessoas não dos são familiares, uma cidade diferente, outro idioma, ruas que levam para o desconhecido, ônibus que passam e indicam lugares onde nunca estivemos. A novidade se apresenta e parece um chacoalhão, nos enche a cara de tapas e grita nos nossos ouvidos: ACORDA, ESTA É A SUA VIDA AGORA!

Precisamos de um tempo que nunca nos será dado

Lembra quando você chegou no seu primeiro dia de trabalho?! Pois é, a gente sente isso quando vem morar fora. Ou melhor, tente se lembrar do seu primeiro dia de aula. Aquele terrível dia em que somos levados para a escola e deixados, chorando. Então, aqui fora parece um eterno primeiro dia de aula. Precisamos de tempo, mas não o temos e jamais o teremos.  Ele nunca nos será dado. Não sabemos onde fica o banheiro, que horas é o intervalo, em quem podemos ou não confiar, qual será a nossa rotina dali pra frente e, mesmo assim, precisamos caminhar. Aqui do lado de fora nós também não temos esse precioso tempo de adaptação, é um luxo que geralmente não nos é oportunizado.

Consertar a vida com ela andando

Nossa vida está andando e nós somos os mecânicos que precisamos dar um jeito para que ela continue nesta estrada sem parar. Só que aqui longe do nosso país, a tal vida está a 12o por hora e nós não temos todas as ferramentas para consertá-la. Não conhecemos a estrada, não sabemos onde encontrar um posto de gasolina e muito menos uma oficina mecânica. Além de desconhecida, a estrada é cheia de curvas perigosas, de atalhos que não sabemos bem onde podem nos levar e, mesmo assim, continuamos firmes e fortes. A cada parafuso apertado, cada corte nos dedos, cada satisfação e até os sustos vão entrando na nossa história e servirão de referência lá na frente. Não é fácil.

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Um pé lá e vida cá

Pode ser o grupo-FBamor da sua vida, a sua casa, seus pais, avós com bastante idade, afilhada, o emprego que sempre sonhou, uma amizade de infância, o seu cachorro ou gatinho, a poupança no banco, seus filhos… enfim, cada um sabe o que deixa para trás quando partir é inevitável. Chegamos com uma vida que precisa entrar nos eixos do lado de cá do mundo, mas lá do outro lado deixamos tantas coisas, tantos amores, tantas conquistas, tantos sonhos realizados que a vontade é de partir-se em dois para poder estar lá e cá ao mesmo tempo.

Só o tempo

Só com o passar do tempo é que essa vontade e sensação de que era necessário se dividir ao meio vai passando. Vai passando porque aquela vida de lá vai começando a ficar na memória e o dia a dia aqui desse lado é muito intenso. São muitas conquistas por segundo, novas amizades que surgem, emprego por conseguir, casa por alugar, sonhos para realizar também nesta vida aqui. A vida parte-se ao meio, nós sentimos nosso coração batendo em dois países ou continentes, mas o tempo, sempre ele, vai se encarregando de colocar as coisas no seu devido lugar. Ele nos faz perceber que, mais cedo ou mais tarde, teremos que aceitar que nós estamos aqui e que aquela vida já não nos pertence, que é tentar segurar areia.

Abrimos mão de muita coisa para nos tornarmos plenos. Sofremos, choramos, nos sentimos esquecidos e partir para um novo mundo não é tão simples como parece. Há dias em que a saudade aperta, a conversa com o melhor amigo de infância faz falta, que só um feijãozinho na casa da avó acalmaria o mar tempestuoso que enfrentamos dia após dia. Mas é assim, morar fora é tentar abraçar o mundo com os braços de um Tiranossauro Rex.

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*Cláudio Abdo publica textos sobre a experiência de morar fora todas as semanas aqui no site Vagas pelo Mundo. Volte sempre!