Morar fora: cada um sabe a dor que sente

Cada um sabe a dor que sente
Foto: Reprodução 7 Themes

Só nós sabemos onde o sapato aperta. Nós e mais ninguém.

Apesar de muita gente achar que a decisão de morar fora acontece da noite para o dia (o que não é verdade), quando apertamos o botão do start não iniciamos um processo, mas ligamos o mixer e vemos todos os sentimentos misturados rodando e passando mil vezes na nossa cara. Agora imagine a sua vida em um liquidificador e pare de ler o texto por um instante… é exatamente assim que nos sentimos quando resolvemos que vamos morar fora.





Fechar uma vida e abrir outra

Quem dera fosse assim tão simples. Infelizmente não podemos parar a nossa vida para tomarmos uma decisão tão importante, então fazemos escolhas com o trem em movimento. Claro que quando enfiamos na nossa cabeça que iremos partir, começamos automaticamente a fazer escolhas, a abrir mão de muita coisa, a desapegar. É tarefa para os de coração forte, pois muitas vezes dá vontade de parar, desistir de tudo e começar a chorar. É preciso vender coisas, doar outras tantas, pedir demissão, abrir mão da sociedade na empresa, dar um longo e doloroso abraço em quem fica. Para fechar a nossa antiga vida temos que tentar transformar o coração de manteiga em pedra, caso contrário não sairemos do lugar.grupo-novo-facebook

Abrindo a nova vida

Após “fechar a conta e passar a régua” na antiga vida, focamos no novo. Mas, como tudo na vida tem um “mas”, nada vai acontecer de forma mágica nessa nossa nova vida. Nada. Será necessário fazer contas, passar o caderno a limpo. Junto com o novo vem, além do medo, as contas e as novas decisões que precisarão ser tomadas. É descer do salto, é trabalhar no Mc Donald´s, é esquecer (mesmo que momentaneamente) daquilo que já havíamos conquistado. É baixar a cabeça, é engolir sapo, é respirar fundo e pensar no objetivo da nova vida. Só assim conseguiremos força e coragem para seguirmos em frente, porque morar fora é muito bom, mas não é fácil.

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Vida nova = sapato novo

Sabe aquele sapato maravilhoso que você sempre quis ter, pois é. Morar fora é conseguir calçar esse sapato. Ele é lindo, é estiloso, está na moda, mas não foi feito para ser usado por horas e horas quando é novo. Quero dizer com isso é que, mesmo com toda a sua beleza, ele vai apertar e dar calo. Vai porque é novo, vai porque o couro ainda não cedeu, vai porque vale o sacrifício. A nossa vida nova é igualzinha a estar com o sapato novo no pé. Traz satisfação, mas também traz dor e algum desconforto.banner-quadrado-autoor

Cada um sente de um jeito

Geralmente quando me perguntam como é morar fora, fico sem resposta. Isso acontece porque o sentimento é de cada um e não existe um padrão. Podemos nos mudar para o mesmo país, no mesmo dia, no mesmo mês, no mesmo ano e ainda morarmos juntos na mesma casa. Mas quer que eu lhe diga uma coisa?! A experiência para você será uma, para mim outra. Eu posso odiar e você amar, eu posso adorar e nunca mais querer voltar e você pode desistir na mesma semana quem que chegou. Não existe fórmula e o sentimento é único e exclusivamente de cada um de nós.

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Sentimentos à moda da casa

Quando partimos, levamos de arrasto uma infinidade de coisas. São sentimentos, promessas de uma vida melhor, uma mala de roupas, outra de esperança e mais uma de saudades. Se morar fora fosse um restaurante, o prato mais pedido seria o de sentimentos à moda da casa. Mesmo que tenhamos uma tendência estranha de padronizar tudo, quando o assunto é sentimento, a coisa muda de figura. O que eu sinto é meu, o que você não me conta é seu, a saudade que aperta o peito é sua, a esperança que alegra é minha, a falta da família é sua, a coragem é nossa.

O certo é que temos e tivemos coragem de nos jogar, mas não sabemos muito bem o que vamos encontrar. Morar fora é aprender a lidar com os sentimentos, é balbuciar no ônibus, é falar sozinho no metrô. Morar fora é se descobrir, é se procurar, se encontrar ou se perder. Muito tentam, nem todos aguentam, mas muitos resistem. É assim e cada um sabe a dor que sente, do seu jeito, do meu, do nosso. No café da manhã tomamos uma xícara de ansiedade, depois almoçamos a saudade e jantamos um pratão de sentimentos que, muita vezes, são servidos frio.

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