Morar fora: preguiça, medo ou esperança?

Morar fora: preguica, medo ou esperanca
Foto: Reprodução Pixabay

Ao partirmos ou quando decidirmos ficar, navegamos entre estes três sentimentos.

Quando pensamos em morar fora, inevitavelmente somos invadidos por todos os tipos de sentimentos. Obviamente que o primeiro deles é a euforia do novo, depois é a vez da ansiedade desse novo que começa a chegar, em seguida somos inundados pela esperança de uma vida melhor que, em seguidinha, se transforma em medo de encarar o desconhecido. Não bastasse tudo isso, precisamos travar a maior batalha das nossas vidas para tentarmos driblar a preguiça e a estabilidade que a nossa zona de conforto proporciona. Sim, quem curte “a vida como ela está” jamais terá sucesso na aventura de morar fora.





Preguiça 

Passamos a vida toda em busca de segurança e estabilidade. Você já parou para pensar o motivo que faz com que milhares de pessoas, todos os anos, apostem todas as fichas em um concurso público? — ESTABILIDADE E SEGURANÇA. Mesmo que a estabilidade resida no fato de ter que fazer mesma coisa, todos os dias, para sempre até ficar velho. Mesmo que a segurança se apoie em um salário razoável que precisa dos extras (vale alimentação ou isso ou aquilo) para se tornar interessante e servir de consolo após realizar um trabalho chato pra burro onde você está cercado por pessoas de mal com a vida, que trabalham com um computador velho e que esperam ansiosamente pela próxima oportunidade de fumar uma cigarro e desfrutar de uma “liberdade momentânea”.

É muito mais fácil ficar onde estamos, é muito mais tranquilo naturalizarmos absurdos do que nos mexermos para mudarmos a nossa realidade. A preguiça e o amor pela nossa zona de conforto evita que a gente tenha uma crise de ansiedade e sinta o coração bater na garganta, que chore na noite anterior ao voo da partida, que tenha que colocar todas as conquistas da vida em malas e mochilas, que precise dar um último abraço em quem a gente ama sentindo as lágrimas escorrendo rosto abaixo.

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Medo

Não existe mudança sem medo e aprendi isso passando por isso. O novo apavora, o mistério nos deixa em pânico e até os mais aventureiros se pegam olhando para o teto fazendo milhares de contas e tentando organizar os pensamentos quando a partida se aproxima. Faz parte, mas sentir medo pode ter duas grandes funções na nossa vida: ou nos impulsiona e nos leva para onde queremos, ou nos trava e faz com que fiquemos no mesmo lugar de sempre.

Nós temos um passado e abraçar o novo significa muito mais do que partir para a maior aventura das nossas vidas, significa também que teremos que nos desfazer do nosso passado, que teremos que abrir mão das nossas conquistas, que seremos desafiados e obrigados a ouvir que somos loucos. Morar fora significa, muitas vezes, voltar umas casas no jogo da vida e recomeçar de baixo. Pode ser que todo aquele passado, que até tinha alguma glória, tenha que ser deixado de lado por um instante e que até a sua profissão não lhe ajude nos primeiros anos. Por isso que eu digo e repito que morar fora não é para todo mundo, que nem todo mundo tem preparo físico e mental para encarar uma nova cidade, um novo estado ou um novo país.

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Mudar de hemisfério não é para qualquer um e passar o Natal no frio (ou no calor) significa muito mais do que sentir na pele que você está muito longe do país onde você nasceu. Significa também que o que, até então era desconhecido, passará a ser natural em pouco tempo, que falar outro idioma é tão simples quanto respirar e que, aos poucos, você absorverá novos costumes e uma cultura totalmente diferente da sua e achará isso normal.

Esperança

Lembro que, quando decidi que tinha chegado a minha hora de morar fora, fui abraçado pela esperança de encontrar, no meu novo local de morada, um lugar onde eu pudesse ter uma vida melhor. Ter uma vida melhor pode ter diversos significados, porém o meu não era no sentido financeiro, por exemplo. Era poder viver em um país onde os carros não precisam de película preta nos vidros, onde uma caminhada durante uma noite quente de Verão não precise ter o medo como companhia.banner-quadrado-autoor

A minha esperança estava na vontade de ter um filho que pudesse brincar na pracinha da quadra de casa, na possibilidade de viver com menos, de poder contar com o hospital público na hora do aperto ou até mesmo saber que existem ruas, avenidas e estradas que não possuem buracos. Parece besteira, mas a minha esperança estava em viver em um lugar onde as pessoas ainda se preocupam umas com as outras, onde o suado dinheiro que cai na conta no começo de cada mês não some em uma simples ida ao supermercado.

Com o tempo, nos obrigaram a achar natural ligar a televisão para saber mais sobre o assassinato brutal que aconteceu na nossa cidade naquele fim de semana. Nos enfiaram goela abaixo que ter plano de saúde é primordial para sobrevivermos, que ter alarme em casa serve para que o bandido não escolha você e que pagar tudo duas vezes é uma garantia que não garante nada. Deram um jeito de naturalizar que não existem governantes honestos e estamos fadados ao fracasso enquanto sociedade.

Eu nunca achei isso natural, sempre me perguntava se existia um lugar onde a realidade se apresentava de outra maneira. Entendi e descobri que sim, que ainda existem lugares onde podemos nos lembrar de como é sermos seres humanos, que a vida pode ser diferente. Porém, para encontrar este lugar, precisei abrir mão de muita coisa e recomeçar. Consegui me livrar da preguiça, vencer o medo e me encher de esperança. E você, em qual etapa está?!

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Claudio Abdo

Cláudio é brasileiro e mora em Portugal desde 2014. Mestre em Ciências da Comunicação, faz Doutorado em Estudos de Comunicação. Apaixonado por rock and roll, conheceu o beatle Paul McCartney pessoalmente. Sempre com uma boa história na ponta da língua, escrever é uma de suas paixões. Cláudio é autor do livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”.

3 comentários em “Morar fora: preguiça, medo ou esperança?

  • 8 de janeiro de 2018 em 5:15 pm
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    Muito obrigado Thiago! Fico feliz pelo seu feedback! Grande abraço!

  • 3 de janeiro de 2018 em 1:22 pm
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    Fantastico seu post, essa parte do medo é que ainda esta me impedindo de morar fora, estou louco para ir embora para Portugal.

  • 2 de janeiro de 2018 em 4:40 pm
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    O tópico “Esperança” resume todo meu sentimento, estou em busca de uma vida melhor, não financeiramente falando, sim no fato de realmente viver!

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