Morar fora é legal, mas e o emocional?

Morar fora e legal mas e o emocional
Foto: Reprodução Pixabay

Mais difícil que sair da zona de conforto, é ter cabeça para permanecer fora dela.

Talvez seja por conta da minha profissão ou por pura curiosidade mesmo, mas se tem uma coisa que eu não abro mão é de uma boa conversa. Apesar da correria da vida nem sempre permitir “perder tempo” ouvindo uma boa história, me esforço para conversar com estranhos e isso se tornou mais frequente quando decidi morar fora. Ou seja, dia após dia converso com pessoas que nunca tinha visto e, mais do que falar, me disponho a ouví-las e quer saber de uma coisa?! Chegar aqui fora é até fácil perto da dificuldade em manter a cabeça boa para aqui ficar.





Digo isso porque eu, você e todos nós somos feitos de histórias. Temos milhares de motivos que nos fizeram largar tudo e partir, temos inúmeras explicações para aceitarmos a distância da família, a saudade dos amigos e sempre buscamos força. Morar fora é um desafio e, mais do que ter a possibilidade de conhecer lugares e pessoas novas, temos a difícil tarefa de termos que conviver com a nossa mente e acredite: é a parte mais difícil de toda a aventura de se jogar para o novo.banner-quadrado-autoor

Voltando aos encontros e boas conversas com estranhos que tenho morando fora, percebi que poucos são os que estão aqui fora e estão “saudáveis” mentalmente. Dia desses, na entrada do meu prédio, vi um vizinho brasileiro falando ao telefone e chorando, em uma clara tristeza. Eu estava levando algumas roupas para secar na lavanderia e escutei ele dizendo: “não sei se eu aguento ficar aqui, a tristeza é muito grande!”. Aquilo me tocou e, apesar de estar há quase quatro anos morando fora, vi que o desafio de morar fora é muito maior do que vender tudo e colocar o que sobra nas malas. Ao ver que as lágrimas escorriam rosto abaixo daquele cara que, assim como muitos e como eu, está apenas tentando encontrar um lugar ao sol aqui no exterior, me ocorreu que o pior inimigo de alguém que resolve partir é, sem sombra de dúvidas, a mente, a cuca, a cabeça, todos os tipos de pensamentos ruins que teimam em nos assombrar.

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Logo que a gente chega, a primeira dificuldade é encontrar uma casa. Depois que achamos um canto para chamarmos de nosso, saímos em busca de trabalho. A língua diferente, o frio de rachar, a chuva que insiste em cair atrapalham, mas nada se compara ao que estamos enfrentando na nossa mente. O nosso cérebro insiste em fazer perguntas inoportunas do tipo: “você precisa mesmo passar por isso?” ou “será que não é a hora de voltar?”. Mas, teimosos que somos, colocamos rapidamente um fone de ouvido e aumentamos o volume para ouvirmos aquela música que nos inspira e traz alguma paz. Por ora, talvez a nossa cabeça nos dê um tempinho, mas em breve seremos confrontados, novamente, por perguntas que não queremos responder.

Nunca dei tanta bola para a questão emocional, mas hoje vejo com muito mais clareza que morar fora é legal, mas precisamos mesmo é cuidar do emocional. As nossas emoções serão capazes de nos impulsionar e nos empurrar lá para frente, ou abrirão espaço para pensamentos ruins e nos jogarão na pior das depressões. A intensidade do “morar fora” nos oportuniza risos fáceis, choros intensos, alegrias bobas e tristezas infindáveis. Parece que acontece tudo num só dia, parece que o ano que vem é tão distante do hoje e isso acontece porque, aqui fora, precisamos viver um dia de cada vez. A nossa missão é se aguentar e vencer as próximas 24 horas.

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Vou dar uma dica para você que ainda não veio: cuide do seu emocional. É sério. Invista tempo e se conheça, tente respirar fundo, manter a calma e reserve alguns minutos do seu dia para conversar com você mesmo. Cabeça boa é meio caminho andado. Para os que já estão na maior aventura da vida, só posso dizer que, para afastar pensamentos ruins, é necessário deixar claro e relembrar, a todo o instante, o que lhe motivou para recomeçar. Tenha anotado em algum lugar visível todos os seus sonhos e jamais esqueça o que lhe trouxe até aqui.

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Se a sua cabeça insiste em lhe boicotar, pare tudo o que está fazendo e tente reencontrar o seu caminho. Morar fora é maravilhoso, mas manter a saúde mental consegue ser ainda mais fantástico. Não à toa que já disse e repito: morar fora é para quem é bom de espírito e é onde os fracos não têm vez. É pressão, é porrada, é muito intenso e exigente. É a melhor e a pior coisa, é o céu e o inferno, é apaixonante e apavorante, porém não troco o que já passei e aprendi aqui fora por nada nesse mundo. Valeu e vale cada segundo, cada minuto e onde, finalmente, entendi o sentido da palavra superação.



Claudio Abdo

Cláudio é brasileiro e mora em Portugal desde 2014. Mestre em Ciências da Comunicação, faz Doutorado em Estudos de Comunicação. Apaixonado por rock and roll, conheceu o beatle Paul McCartney pessoalmente. Sempre com uma boa história na ponta da língua, escrever é uma de suas paixões. Cláudio é autor do livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”.

2 comentários em “Morar fora é legal, mas e o emocional?

  • 12 de abril de 2018 em 6:39 pm
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    Adorei o texto, muito encorajador…estou buscando este equilíbrio e sei que vou conseguir vencer os desafios, muito obrigada por compartilhar estas palavras, em breve chegarei a Portugal que Deus me dê força para seguir

  • 27 de fevereiro de 2018 em 5:20 pm
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    Eu Moro na California desde 1969 concordo com este texto, a saudade e pesada mas , quando lembro das razoes da minha mudanca de pais, me acomodo. Me livrei de preconceitos que me criavam problema de obter emprego e outras coisas. Me ajustei e ainda tenho saudade, mas a vida aqui e’ muito melhor.

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