A última ligação

A ultima ligacao
Foto: Reprodução Pixabay

O dia depois de 11 anos.

Escrevo este texto com um certo atraso. Na verdade quando digo “certo atraso”, estou sendo modesto porque, na verdade, as palavras que agora me surgem na mente chegam com um delay de quase 11 anos. Parece bastante tempo, e é, mas como diz aquele velho ditado: “antes tarde do que nunca” e assim será. Vamos lá.





Hoje quando acordei e fui preparar o café da manhã, comecei a pensar na vida. Coisas bobas, do dia a dia mesmo e lembrei que no dia 17 de maio de 2007 eu recebi uma ligação. Não, eu não sou nada bom de memória e não recordo de datas assim com tanta facilidade, o que ocorre é que, por coincidência ou não, foi no dia 17 de maio de 2007 que eu gravei um DVD com a banda que eu tinha. Estava em um bar e o meu telefone tocou no bolso. Olhei e vi que era da casa do meu avô, de pronto atendi.grupo-novo-facebook

Confesso que fiquei bastante surpreso com a ligação, pois raramente recebi um telefonema do meu avô. Raramente leia-se 2 ou 3 vezes na vida no máximo. Em 2006 minha avó faleceu e, poucos meses depois, recebi a ligação do meu avô. Com estranheza atendi e do outro lado lá estava meu avô, com a voz já mais fraca que o habitual e, como eu estava no bar passando o som, foi uma comunicação bastante ruidosa.

Ele falava baixo e eu não conseguia entender muito bem. Lembro de ele perguntar quando eu iria visitá-lo e de eu responder que ainda não tinha planos para isso. Foi uma ligação rápida, coisa de 2 minutos no máximo contando com as interrupções.

Se você pensa em morar fora, saiba que é maravilhoso, porém é primordial cuidar do emocional.

Ao desligar o telefone comentei com a minha namorada à época, Amanda, a minha surpresa e disse que aquilo não era muito comum de acontecer. Meu avô e minha avó tiveram 6 filhos, um deles, obviamente, é o meu pai. Porém, entre todos os tios, um deles era especial.

Sim, o tio Hamilton nasceu com algum atraso mental e viveu toda a sua vida com meus avós. Ele era um querido, uma criança de 5 anos presa em um corpo de quase 60 e que, diariamente, encontrava janelas de uma lucidez impressionante, mas que logo se iam e a criança assumia o controle novamente.

Lembro com carinho do tio Hamilton porque ele viveu algum tempo na minha casa quando eu era adolescente e foi um tempo de convívio intenso. Meus amigos frequentavam a minha casa e lá vinha o tio com seus carrinhos, rádio e balas para mostrar e oferecer para as visitas.

Extremamente ansioso, seu porte físico magro e bastante atlético favoreciam longas caminhadas e lá ia o tio Hamilton passear pelas ruas, tomar um café e “ver o movimento” como ele dizia. Inclui o meu tio na história porque, assim que a minha avó faleceu, meu tio teve que ir viver em uma clínica já que o meu avô, do alto dos seus 90 anos, não teria como cuidar dele sozinho. Ou seja, em alguns meses o meu avô perdeu a esposa e ficou longe do filho.

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Diferente da minha avó, meu avô não era um cara muito carinhoso. Militar, pracinha da FEB (Força Expedicionária Brasileira) e ex-combatente na Segunda Guerra Mundial, meu avô era um cara extremamente quieto e reservado. Com uma calma e paciência impressionantes, não era de demonstrar muito carinho e, novamente aqui a explicação da minha supresa ao receber uma ligação dele. Hoje, quase 11 anos depois daquele telefonema me caiu a ficha e acho que, talvez, seja porque tenho mais maturidade para entender aquele gesto.

A última ligação que meu avô me fez pode ter sido uma forma de ele querer se aproximar, de se redimir do tempo que não tivemos. Isso do jeito dele, claro. Hoje, morando fora há alguns anos, percebo muito melhor a importância do tempo que temos e passamos com as pessoas que amamos. Apesar da correria da vida, da impossibilidade de encontros mais frequentes e dos raros momentos em família, sinto que aquela ligação chegou com um certo atraso por parte dele e, da minha parte, levou mais 11 anos para ser entendida.

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Eu era um jovem, preocupado com a minha banda e louco para terminar a faculdade. Estava começando um namoro com a mulher que seria a minha esposa no futuro e vivia num mundo bastante diferente do dele. Meu avô estava em outro patamar. Sentindo que os seus dias por aqui estavam chegando ao fim, sentindo saudade de sua companheira de tantos anos, sozinho em um apartamento na fria Curitiba, hoje entendo que aquela última ligação foi a forma que ele encontrou de receber um abraço, alguma palavra de conforto.

Porém, também penso que o tempo que tivemos juntos não foi bem utilizado por nós dois. Foram raras as conversas, foram curtos os abraços e sempre tinha algo ou alguém mais importante entre nós. Isso resultou em uma relação por “obrigação”, em uma espécie de convivência forçada pelo fato de ele ser meu avô e eu ser o seu neto, mas nada além disso. Sei que isso não é um sentimento só meu e que muitos de nós temos, em nossa família essa relação “forçada”, essa obrigação de estarmos juntos por “obrigação” e nada além disso.

Morando fora eu pude amadurecer muito e perceber que foram diversas as “últimas ligações” que eu já recebi depois dessa do meu avô. Foi de um amigo que me ligou pouco antes de eu partir para morar fora e logo depois foi ele quem partiu para uma outra dimensão, foram os encontros finais antes do embarque, foram os abraços apertados regados por lágrimas. A vida é feita de ciclos, de encontros, de partidas e de chegadas, mas além disso que todos nós sabemos, escrevo esse texto para dizer que podemos (e devemos) aproveitar melhor as nossas ligações antes de elas se tornarem “a última”.

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Escrevo o texto com tanto atraso para que os nossos encontros não sejam por obrigação, mas por satisfação. Para que os nossos momentos sejam infinitos enquanto durarem para que, quando chegue a hora da última ligação, ela seja compreendida de maneira imediata e que, em nossa mente, ecoem a saudade, o carinho, o amor e a vontade eterna de um possível reencontro. Eu demorei, mas será que todos nós precisamos esperar tanto tempo para percebermos isso?! Será?!



Claudio Abdo

Cláudio é brasileiro e mora em Portugal desde 2014. Mestre em Ciências da Comunicação, faz Doutorado em Estudos de Comunicação. Apaixonado por rock and roll, conheceu o beatle Paul McCartney pessoalmente. Sempre com uma boa história na ponta da língua, escrever é uma de suas paixões. Cláudio é autor do livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”.

Um comentário em “A última ligação

  • 7 de abril de 2018 em 10:25 pm
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    Que texto emocionante, Claudio! Nos leva a refletir sobre seguir o sonho de morar fora, mas nunca nos esquecer de sempre nutrir as nossas raízes antes de partir. Além de sempre dar um jeito de voltar para visitar quem amamos. Parabéns!

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