Morar fora: uma mala de roupa e um baú cheio de apostas

Morando fora precisamos lidar com as expectativas e apostas
Foto: Reprodução Pxhere

E pode acreditar, o baú pesa muito mais.

Já escrevi outras vezes que a ideia de morar fora nunca vem sozinha. Além de termos que dormir com a nossa ansiedade e expectativa pelo novo, ainda precisamos lidar com o que os outros pensam da nossa decisão. Por sugestão indico que você faça todo o processo e corra atrás dos documentos sem falar nada para ninguém, pois caso algo dê errado as explicações são diminutas.





Porém, como a ansiedade de mudar de vida parece que estrangula e aperta o pescoço com as duas mãos, precisamos encontrar alguém que possa, simplesmente, nos ouvir sem nos julgar. Mas pode acreditar em mim, nem isso é tarefa simples. Voltando ao início da nossa conversa, morar fora exige muito mais do que fazer as malas e partir, partir para o novo também abre um baú de exigências nossas e, principalmente, dos outros.

Todas as incertezas do mundo

Nos organizamos, vendemos o que conseguimos, guardamos uma grana, escolhemos nossas melhores roupas, doamos o excedente, pegamos nossas malas e enchemos com o que nos restou. Tente imaginar colocar toda a sua vida em duas malinhas e, caso pareça impossível, trate já de começar a trabalhar e praticar o desapego. Morar fora também é o maior exercício de desapego que temos que fazer!

Malas prontas, pesadas e fechadas. Hora de conferir os bilhetes, dar uma revisada nos documentos e partir. Vamos para o aeroporto arrastando a nossa vida, os puxadores das malas parecem frágeis, mas o peso maior é o das exigências e apostas de quem fica e coloca todas as fichas na gente. Ninguém parte para uma nova cidade, estado ou país para “dar errado” e o “dar certo” traz consigo 1 bilhão de possibilidades. Nossas malas parecem leves diante do baú carregado de exigências que foi amarrado na nossa cintura.

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Exigências mil

Nós estamos cheios de expectativas, ficamos confabulando o que nos aguarda, nossa cabeça parece ferver e o nosso cérebro lateja e quase funde. Há dias ou meses que não dormimos bem, as despedidas doem, a saudade nem chegou e já deu um nó no coração, mas nós somos fortes e seguimos adiante. Precisamos, assim que chegar, encontrar um trabalho e parar, o mais rapidamente possível, de converter o dinheiro. Temos pressa!

Mas o tal baú que eu disse também está ali e o pior, cheio até a tampa. São os amigos, os familiares, os (ex)colegas de trabalho e os conhecidos que foram, sem que a gente notasse, colocando expectativas, apostas e exigências dentro do tal baú. “Será que vai dar certo?”, “vai trabalhar no quê?”, “só quero ver se virar no inglês”, “bicho louco, sair do país numa hora dessas”, “ora deixar tudo o que conquistou para trás, onde já se viu?”, “vai ter que fazer novos amigos, tá ferrado”, “tá pensando que é moleza, vai se lascar” entre outros tijolos foram, pouco a pouco, sendo colocados no baú de apostas e exigências. Ele pesa, e pesa muito, mas muito mesmo.

A gente precisa dar certo

Morando fora já me deparei com dezenas de pessoas que, assim como eu, resolveram “se jogar” e partir para o novo. Conheci uma pessoa que mentia onde trabalhava para que os seus familiares não ficassem sabendo que, na real, era de faxina em faxina que ela pagava as contas na gringa. Logo que soube disso julguei, mas depois comecei a pensar e posso ser sincero?! Entendi perfeitamente esse comportamento.

Acontece que a galera que fica não consegue ter noção da real, cria expectativas e faz uma lista de exigências. As nossas costas doem por conta do peso de “dar certo” e vencermos, mas é trabalho duro, é puxado, é choro e desanimo muitas vezes. A gente partiu porque queria mais, porém nem sempre as coisas saem como a gente planeja e precisamos de um pouquinho mais de tempo. Ahhh o tempo, quem colocou os tijolos no baú acha que as coisas se ajeitam na velocidade da luz do lado de cá, mesmo que lá onde sempre viveram não tenham onde cair mortos.

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No dos outros é refresco

Sempre foi e sempre será. Julgar e apontar o dedo é moleza e, como diz o canto e compositor Humberto Gessinger na música Outras Frequências, “seria mais fácil fazer como todo mundo faz, o milésimo gol sentado na mesa de um bar…”. Ficar na zona de conforto apontando os erros e, na grande maioria das vezes, fingindo que não viu os acertos é senso comum, é o caminho mais tranquilo a ser seguido e os que nos julgam são campeões nisso.

E nós

Bom, nós que queremos ver o mundo de outro prisma, nós que deixamos quem amamos para trás querendo realizar os nossos sonhos, que “vibramos em outra frequência”, nós que temos coragem de recomeçar, que não vemos muito problema em vender as nossas coisas pela internet e que compreendemos que a vida pode, e deve, caber em duas malas partimos mesmo assim. Os tijolos no baú de exigências vieram conosco e nós vamos retirando, um a um, e nos ajeitando.

A gente encontra um canto, a gente arruma um emprego meia boca pensando em atuar na nossa área mais adiante, a gente estica daqui e puxa dali, aprende a viver um dia de cada vez, a dar valor para experiências ao invés de produtos e segue a nossa vida. O inglês vai melhorando, nós vamos fazendo amigos, aprendemos a lidar com a saudade e entende que o mundo é o nosso quintal.

Por isso já disse e repito sem medo: morar fora não é para qualquer um, morar em outro país é para os bons de espírito e para quem sabe cair, bater a poeira e seguir em frente. Também já disse que nós que decidimos morar fora não somos melhores do que ninguém, porém somos diferentes das maioria. Você segue daí colocando tijolos de expectativa em baús e eu sigo daqui, tirando um por um e tendo experiências e vivências que onde eu estava eu jamais teria.


Claudio Abdo

Cláudio é brasileiro e mora em Portugal desde 2014. Mestre em Ciências da Comunicação, faz Doutorado em Estudos de Comunicação. Apaixonado por rock and roll, conheceu o beatle Paul McCartney pessoalmente. Sempre com uma boa história na ponta da língua, escrever é uma de suas paixões. Cláudio é autor do livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”.

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