Médico brasileiro chega ao posto médico mais alto da França

Medicina na Europa
Foto: Dr. Maurício Fortuna. Arte: Vagas pelo Mundo

Confira a entrevista exclusiva com o Dr. Maurício Fortuna.

Trabalhar como médico na Europa é um desafio para os profissionais brasileiros. A validação do diploma é dos principais obstáculos na realização desse sonho. O médico brasileiro Dr. Maurício Fortuna viu na França, há 12 anos, uma oportunidade de vida e mergulhou nesse desafio junto com sua esposa Janine e seus dois filhos.

Foram 2 anos de preparação, planejamento e estudo do idioma para que essa mudança para Europa fosse possível. Formado pela UFSC – Universidade Federal de Santa Catarina como cirurgião geral e do aparelho digestivo. Natural de São Paulo, mas criado em Joinville-SC, o médico Dr. Maurício Fortuna passou nas provas em diversos países europeus e hoje pode atuar tanto na França, quanto Alemanha, Portugal e também na Suíça.





Depois de 12 anos de trabalho, luta e muita dedicação à Medicina, ele foi convidado para exercer o posto mais alto de um médico na França. A partir de 01 de janeiro de 2019, ele será Chefe do Serviço de Cirurgia Vascular do Hospital Regional Mercy de Metz, em Metz na França.

Depois de ter passado pelo Hospital Universitário de Strasbourg (França), Hospital de Haguenau (França), Ortenau-Klinikum Oberkirch (Alemanha), Ortenau-Klinikum Kehl (Alemanha), atualmente ele ocupa o cargo de cirurgião vascular no Hospital Municipal de Karlsruhe (Alemanha).

Confira a entrevista completa e exclusiva que fizemos com o Dr. Maurício Fortuna e saiba como foi a sua trajetória como médico na Europa.

Entrevista Dr. Maurício Fortuna

1) Como surgiu a vontade de mudar para a França?

Na verdade o início de tudo se deu pela vontade de dar uma reviravolta na minha carreira quando eu ainda trabalhava no Brasil, em Florianópolis/SC. Minha vontade era de fazer outra especialização e eu sabia que na época existia um acordo entre Florianópolis e Strasbourg na França (acordo direto entre hospitais) que hoje em dia não existe mais, infelizmente.

Como uma colega de turma tinha feito um estágio (remunerado) em oftalmologia no Hospital Universitário de Strasbourg (França), pensei que vir para a França (Strasbourg) e fazer como outros 3 colegas de faculdade tinham feito: terminaram a faculdade e vieram à França para fazer a formação e depois voltaram ao Brasil e prestaram prova de título. Além disso seria interessante para meus dois filhos, pois aprenderiam uma nova língua e cultura.

Com a ajuda da minha esposa, Janine, que conhece várias pessoas, as peças foram se juntando e as coisas acontecendo. Largamos tudo no Brasil e viemos para a França. Parece loucura, mas pensamos que se não desse certo, bastaria voltar. Por que não fazer residência no Brasil? Na verdade, seria difícil voltar a ser residente depois de ter trabalhado como staff e financeiramente não seria possível.

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2) Qual foi a sua trajetória como médico brasileiro na Europa?

Chegamos em Strasbourg e comecei a trabalhar em novembro de 2005. Claro que a preparação durou quase 2 anos e tinha feito todos os cursos possíveis para aprender o francês o mais rápido possível. Cheguei “formado” em francês. A experiência foi engraçada… chegar no aeroporto em Strasbourg, sozinho (vim antes da família) e a atendente não entendia meu francês (acho que por causa do sotaque) e eu não entendia o francês alsaciano [região da Alsácia] dela, mas tudo bem.

Cheguei para trabalhar no Hospital dia 1 de novembro e não tinha ninguém… óbvio, era feriado na França. Voltei ao alojamento meio desapontado. Dia seguinte conheci pessoalmente o chefe do serviço e todos os outros colegas. Levei uns bons 4 meses até afinar o francês de maneira que eu entendia relativamente bem o que eles falavam e eles também grupo-novo-facebookentendiam o que eu queria dizer.

Trabalhei durante 27 meses como FFI (Faisant fonction d´Interne) que é um “trabalhando como residente”. O estatuto serve para os médicos estrangeiros que querem aperfeiçoar sua especialidade  na França. Você não é considerado médico, mas pode realizar atos  médicos sob supervisão direta. É meio que uma residência médica, mas para estrangeiros e que não dá direito de exercer a Medicina aqui (o estatuto e o contrato são claros).

Depois dos 2 primeiros anos solicitei “melhorar de posição” e meu chefe falou que seria impossível haja visto que eu era brasileiro com um diploma médico não reconhecido na França mas que, se eu fosse europeu com diploma europeu, claro que ele me daria um posto melhor.

Solicitei minha cidadania italiana e me submeti ao exame de equivalência de diploma médico em Portugal (Lisboa) e passei. Com o passaporte europeu na mão e a equivalência do meu diploma em Portugal, solicitei ao chefe o posto prometido.

Tive que solicitar o reconhecimento do estatuto de médico no Ministério da Saúde da França – CAE (Commission d’autorisation d’exercice) e depois na comissão na Ordem dos Médicos nacional da França.

Como o processo seria longo, deixei o tempo correr, mas o destino foi mais generoso e recebi uma proposta de um médico da Alemanha pra trabalhar lá. Como moramos na fronteira da França com a Alemanha (6km) não vi dificuldade e estava pronto para mais esta “aventura”.

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A entrevista na Alemanha em 2009:

Ao final da entrevista o colega falou que gostou muito do meu currículo, mas meu alemão deixou muito a desejar. Mesmo assim gostaria que eu trabalhasse no Hospital, porém a contratação seria feita depois da avaliação do diretor do Hospital, que deveria também me entrevistar, e que não falava outra língua além do alemão.

Ele me falou que eu tinha 6 semanas para convencer o diretor do Hospital que eu tinha um nível suficiente de alemão para trabalhar lá.

Fui para casa, fiz todos os cursos de alemão para autodidatas que encontrei e 6 semanas e depois fui fazer a entrevista. Neste momento o chefe do serviço me acompanhou e conversou com o diretor foi em dialeto. E no final desta discussão inteligível para mim, me falaram que eu poderia trabalhar no Hospital.

Solicitamos uma autorização de trabalho médico na Alemanha e então pude realizar, mais uma vez, residência de cirurgia de base (que corresponde aos 2 primeiros anos de Cirurgia geral do Brasil + 1 ano de cirurgia do Trauma (cirurgião geral na Alemanha reduz luxação e faz Osteosintese nas Fraturas)) durante 3 anos e depois realizei a prova de conhecimentos médicos do Ministério da Saúde alemão. Passei e então recebi o Diploma de médico alemão.

Troquei de hospital e recomecei a cirurgia vascular.

 Depois de 4 anos completei a formação de cirurgião vascular alemã (2 anos de cirurgia de base + 4 anos de cirurgia vascular com 6 meses de terapia intensiva).

Realizei a prova da especialidade, passei e hoje trabalho como cirurgião geral no Hospital Municipal de Karlsruhe – Alemanha, (depois de 9 anos de muito trabalho). 

Depois de obter o título de cirurgião vascular apareceram diariamente propostas de postos em vários lugares dentro da Alemanha, França e Suíça.

Encontrei meu antigo chefe (o de Strasbourg) no início deste ano, num congresso e, depois de conversarmos, ele me convidou para criar e assumir o Serviço de Cirurgia Vascular em um Hospital em Metz, na França. Este é o meu desafio para 2019. Eu e a Janine estamos super motivados para sair da nossa zona de conforto (uma vez mais) e começar tudo de novo.

Equipe médica na Alemanha
Equipe médica na Alemanha

3) Qual foi o momento mais difícil da sua vida na Europa?

O momento mais difícil da minha vida na Europa foi ter ficado sem a bolsa (FFI), esperando o tempo necessário à burocracia francesa para que os devidos documentos fossem reconhecidos.

4) Qual o ponto alto da sua vida no exterior?

O ponto alto da minha vida no exterior está acontecendo agora com o convite para criar e assumir a Chefia do Serviço de Cirurgia Vascular num Hospital em Metz, na França.

Mas na verdade tive vários outros pontos altos… ter passado nas provas em Portugal e Alemanha, ter sido reconhecido como médico com autonomia em Portugal, França, Alemanha e atualmente também na Suíça (agosto de 2018) e ser reconhecido como cirurgião vascular nestes países.

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5) Em algum momento você teve vontade de largar tudo e voltar para o Brasil?

Na verdade eu e a Janine somos muito determinados e quando decidimos ficar na Europa, assumimos a responsabilidade por inteiro. Claro que muitas vezes ficamos deprimidos ou nos achamos injustiçados, mas sempre soubemos que a escolha foi nossa e que teríamos que levar até o fim.

livro morar fora claudio abdo

Nossa família (eu, Janine, Caroline e Luis Felipe) nos unimos muito uma vez que estamos “sozinhos” aqui e sempre contamos uns com os outros. Choramos bastante juntos, mas também demos muitas e muitas gargalhadas.

Quando li o livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”, do Cláudio Abdo, tive a sensação de que eu havia escrito o livro. Com os mesmos sentimentos: medos, angústias, mas também alegrias e muitas vitórias.

6) Como os médicos brasileiros são vistos pela comunidade médica na Europa?

Na verdade é difícil falar como os médicos são vistos pela comunidade médica na Europa, uma vez que médicos brasileiros não são médicos por aqui antes de fazerem a equivalência e terem uma nacionalidade europeia.

Para mim é complicado falar pois não posso dar falso testemunho. Aqui em casa as coisas são bem divididas: à grosso modo a Janine resolve a parte burocrática e eu passo nas provas e trabalho duro e da melhor maneira possível.

Acho que em qualquer lugar no mundo, se o profissional é correto e trabalhador as coisas acontecem sempre para o melhor e o universo conspira à favor dessas pessoas.

7) Como você vê a especialização de médicos na Europa?

A especialização da Europa é excelente. A carga teórica dos europeus é muito grande e isso os coloca em vantagem sobre nós na hora de realizar determinado teste de conhecimentos médicos.

A parte prática deixa a desejar logo que saem da faculdade, mas compensam durante a residência. Mesmo porque se formar em Medicina na Europa apenas dá a licenciatura em Medicina mas não a autonomia para trabalhar como médico. Médicos sem residência não podem trabalhar. É como um advogado que não passa na OAB no Brasil.

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8) Qual o conselho que você pode dar para jovens médicos ou estudantes de Medicina que querem ter uma experiência no exterior? Quais os países mais indicados para isso?

A experiência no exterior é muito gratificante, mas o motivo para realizar um estágio fora do Brasil é primordial. Se o objetivo é aprender “como fazem lá fora”, a experiência é interessante.

É aquela tal história: o aluno faz a escola e não a escola o aluno. Se você é interessado, pode aprender muito no pior serviço do mundo. Mas se é desinteressado, pode frequentar as melhores faculdades/hospitais/aulas do mundo e não irá aprender nada.

O país mais indicado para se fazer um estágio é aquele onde você domina a língua, senão vai perder informações super importantes. Não adianta achar que saber falar inglês resolve qualquer coisa, quando as pessoas só falam outra língua, pois o contato com o paciente é o mais importante.

Entender a queixa do paciente, fazer uma boa anamnese, examinar o paciente e entender o que está se passando é primordial para um diagnóstico acurado.





9) A validação do diploma de médico na França e Alemanha (ou em toda Europa) é muito difícil? Quanto tempo demora o processo? Vale a pena para os médicos brasileiros que querem imigrar?

Cada país tem suas regras e requisitos, hoje em dia está ficando cada vez mais difícil e complicado, mas ainda é possível, sim. Na minha época para sair uma autorização na Alemanha era somente 2 semanas, hoje em dia esta levando em média 9 meses. Já o processo de equivalência em Portugal levou no total 8 meses (desde da entrega dos papéis burocráticos até a prova e o resultado).

Se vale a pena imigrar, então, um médico nunca deve parar de estudar e se aperfeiçoar.

Vim para cá como cirurgião geral e do aparelho digestivo formado no Brasil, fiz parte da residência de cirurgia vascular na França e repeti a cirurgia geral e vascular na Alemanha, um total de 11 anos. Mas cada dia que passou valeu a pena e, o resultado é aonde estou hoje.

Escutei várias vezes que era impossível e hoje não tenho do que reclamar. Eu e a Janine escutamos muito: “Nossa! Que sorte de vocês, hein?”. Se as pessoas que falam isso soubessem o que passamos para estar onde estamos, mudariam para: “Nossa! Que determinação, hein?”.

Se vale a pena validar o diploma e imigrar? Isso depende da determinação e da vontade de cada um. Para a minha família, deu certo… pode ser que para outras não dê.

Tudo depende da capacidade de adaptação de cada um pois são culturas diferentes e hoje, nossa família é bem alsaciana [da região Alsácia, na França], pois mudamos totalmente nossa maneira de ser para podermos nos integrar totalmente ao país que escolhemos para viver.

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10) Como você conseguiu chegar ao posto mais alto de um médico na França? Como se preparou para isso? E como reagiu a esse conhecimento profissional?

Cheguei ao posto que irei ocupar em janeiro de 2019 acordando literalmente ANTES do Sol nascer e trabalhando até bem depois dos colegas terem voltado para casa. Minha preparação começou ainda antes de sairmos do Brasil quando decidimos que nos primeiros anos aqui, não teríamos contato com brasileiros, para podermos mergulhar na cultura francesa e aprender a língua e os costumes o mais rápido possível.

Depois de integrados, só nos restou trabalhar com afinco e seriedade. O convite para chefiar o serviço me trouxe muita alegria para mim e para a Janine e aquela sensação de dever de casa cumprido. Ano que vem sairemos mais uma vez da nossa zona de conforto para iniciarmos uma outra etapa.

Gostaria de adicionar que, sem a ajuda e as ideias da Janine, hoje estaríamos vivendo e trabalhando no Brasil como praticamente todos nossos amigos. Sou muito grato à ela não só pelas ideias, mas pelo apoio moral e burocrático (risos) e claro, sem contar de ter dado o melhor aos meus filhos. Qualidade de vida (simples e segura) na Europa, isso não tem dinheiro no mundo que pague.

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Amanda Corrêa

Amanda é brasileira, jornalista, mestre em Ciências da Comunicação pela Universidade do Minho (Braga, Portugal). Mora desde 2014 em Portugal. Atua há 13 anos na área de Jornalismo e Comunicação Social.

4 comentários em “Médico brasileiro chega ao posto médico mais alto da França

  • 3 de dezembro de 2018 em 1:38 am
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    Mas 50 % pelo que li ajudou graças ao pedido nacional de imigração da intalia para obtenção do passaporte europeu por que com documentos europeus e passaporte você tem entrada livre todos os países da comunidade europeia. Agora uma pergunta será que falando francês sem passaporte europeu um Brasileiro consegue revalidar seu diploma medico na França…?

  • 18 de novembro de 2018 em 11:48 am
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    Sensação de medo porém gosto de vitória, recomeçar eh sempre um desafio.
    Parabéns

  • 23 de outubro de 2018 em 9:17 am
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    Adorei a entrevista! Somos Catarinenses também e moramos em Metz faz 09 meses. Em especial, adorei quando ele cita a troca de “sorte” por “determinação”, pois é assim mesmo que ocorre. Parabéns ao Dr. Mauricio Fortuna e a Janine, Caroline e Luiz Felipe, sabemos que ´uma conquista familiar mesclada com o profissional. Se precisarem de algo, estamos bem perto.

  • 21 de outubro de 2018 em 11:00 pm
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    Excelente entrevista ao médico Mauricio Fortuna que prova mais uma vez que a dedicação a persistência tem premiação, conheci e trabalhei com o seu pai Celso Fortuna aqui no Brasil, também homem dedicado e determinado que dava valor à nossa criatividade, parabéns a esta família que da lições de coragem e ótimismo sempre.

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