Os potinhos e o amor

Dia dos Namorados
Foto: Pixabay

Dia desses estava cozinhando e, naquela espera até levantar fervura num molho, me peguei pensando, e tentando de alguma forma, definir o amor. Fazia perguntas e tentava responder mentalmente, me questionava se o amor existe e, crente que sou, procurava respostas para explicar o tal do amor que eu sinto.





Sim, esse bichinho do amor me mordeu há alguns anos e, confesso, todos os dias ele volta a me morder. Quando conheci e me apaixonei pela Amanda, o grande amor da minha vida, tinha certeza que passaríamos longos e bons anos juntos, mas depois nasceu minha filha Ana e o amor “mudou”. Não, o amor que eu sinto pela Amanda não mudou, mas o amor que eu sinto pela Ana é diferente e é daí que nasce esse texto.

Amor diferente?

Sim, eu acredito que existam amores diferentes e isso porque, na luta pela busca na definição de amor, achei uma maneira que, de certa forma, me serviu. Enquanto o molho não fervia, comecei a pensar nos temperos que iria colocar naquele caldo para que, depois, ele se tornasse um molho de verdade. Bem temperado, cheiroso, gostoso e com boa textura.

E foi assim que eu cheguei na definição de que o amor, e a vida, são como uma panela em fogo alto. Imagina que você acendeu a boca do fogão e ela está estragada no máximo, não existe a possibilidade de abaixar o fogo. Sendo assim, não é plausível pensar em sair de perto dela e, o máximo que você poderá fazer é desligar o fogo, caprichar no preparo dos ingredientes, deixar tudo cortado antes que eles sejam jogados na panela.

Azeite, alho e cebola vão para a panela. Fogo alto aceso. Em poucos minutos o barulho dos ingredientes fritando será ouvido. À partir daí você começa a buscar os condimentos que irão deixar o molho delicioso. No amor é exatamente a mesma coisa. O amor é um molho, cozido em fogo alto e que não pode ser separado, gosto a gosto, de tudo o que o compõe.

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Você ama porque a pessoa que é carinhosa. Pronto, temos no nosso molho do amor o tempero do carinho que estava num potinho. Você também ama porque o seu par é compreensivo, porque lhe respeita, porque soma, porque é inteligente, divertido, sonha junto com você e tem tantos atributos quantos você encontre. E cada atributo, cada adjetivo, cada qualidade está em um potinho separado. Uns maiores, outros menores, uns mais picantes, outros nem tanto.

Também existem os ingredientes “estranhos”, mas que se colocados na quantidade certa podem dar um toque especial ao molho do amor. É a acidez do limão, é o fogo da pimenta, o toque de noz moscada ou sei lá o que que deixam o seu amor diferente. Do jeito de vocês, se é que tem um jeito. A panela continua no fogo, a fervura já levantou e você precisa ter habilidades e agilidade suficiente para não deixar queimar.

Porém, num descuido o tal molho pode queimar. Se não for algo grave, um pouco de molho de soja pode ajudar a descolar do fundo, mas se foi erro grave, talvez não tenha conserto. Uns dizem que o amor é de cristal, outros dizem que é uma placa de inox onde as marcas aparecem facilmente. Eu prefiro a metáfora do molho, pois com talento, paciência, experiência e habilidade é possível manter o molho no fogo alto sem deixar que ele queime.

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Amores diferentes

Os potinhos de tempero estão ali, próximos do fogão. A panela está no fogo e no molho do meu amor pela Amanda existe sabor e consistência. Um tipo de amor. Há uns poucos meses colocaram outra panela no meu fogão, também em fogo alto, a panelinha da Ana. Ali estamos fazendo um outro molho, com outros temperos, mas que também é amor. UM GRANDE AMOR, mas um amor diferente.

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Nem mais nem menos, nem maior nem menor. Diferente. Assim como o amor pelos meus pais, irmãos, amigos e familiares. Uns mais apimentados, uns mais bem elaborados, com mais dedicação e empenho, outros nem tanto. Uns mais saborosos, outros mais insossos, sem gosto mesmo. Não deixa de ser amor, mas são amores diferentes.

Hoje é o Dia dos Namorados, mas esse texto não é somente para hoje. Queria muito, e sei que pode soar pretensioso, que esse texto fosse lido durante outras épocas do ano. Nem sempre teremos a habilidade para deixarmos os nossos molhos deliciosos, alguns queimarão, outros ficarão difíceis até de serem provados, pois nem todos nós somos cozinheiros habilidosos.

O fato é que o amor, para mim, é um molho que está sempre sendo feito. Uns a gente ainda nem colocou na panela, outros já estão no fogão e não levantaram fervura e outros já estão quase queimando.

Sinceramente, desde que comecei a comparar o amor, ou os amores aos molhos, estou conseguindo perceber que, em alguns casos, terei pratos maravilhosos dignos de restaurantes com estrela Michelin. Mas também consigo perceber que, em outros casos, não é possível colocar o molho nem nos pratos servidos pior restaurante de beira de estrada.

Tudo bem se você ainda não encontrou a sua panela, ou quem sabe até se já queimou um molho alguma vez. Acontece que, uma das melhores coisas da vida, é saber que amanhã poderemos tentar mais uma vez. Eu sigo daqui temperando o meu molho de amor, uns mais outros menos, mas sigo. Torço para que você faça o mesmo, pois a vida muda de sentido quando isso acontece!

Mora fora: quem vai leva um pedaço de nós.



Claudio Abdo

Cláudio é brasileiro e mora em Portugal desde 2014. Mestre em Ciências da Comunicação, faz Doutorado em Estudos de Comunicação. Apaixonado por rock and roll, conheceu o beatle Paul McCartney pessoalmente. Sempre com uma boa história na ponta da língua, escrever é uma de suas paixões. Cláudio é autor do livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”.

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