A vida que deseja
Talvez a vida que deseja não seja possível – Foto: Canva.

Morar fora nos desafia a ajustarmos nossas expectativas e ilusões. Talvez a vida que deseja não seja possível…

Se tem uma coisa que todo brasileiro vai aprender a fazer ao colocar o pé na estrada é a tal do ajustamento de expectativas. Ouvimos tantas coisas antes de partirmos, que parece que atravessaremos um portal e tudo vai dar certo, mas aqueles que já fizeram a travessia nos dizem o contrário. Aquilo que pensamos, sentimos e fazemos, tem um alto potencial de impacto na nossa jornada migratória e é exatamente sobre isso que vamos conversar. 

Será possível ter a vida que deseja?

Quando olhamos para os últimos anos percebemos o quanto que cada vez mais brasileiros desejam morar fora. Essa realidade se dá por diferentes motivos; melhores oportunidades de salário, uma vida mais segura, dias mais tranquilos, novas chances de expansão intelectual e acima de tudo, de uma rotina diferente.

Esses desejos são alimentados por aquilo que consumimos nas redes sociais, nos veículos de comunicação e no compartilhar dos amigos. Ou seja, aqueles que nunca colocaram o pé na estrada se sentem seduzidos por essa vida repleta de novidades. 

Aqueles que desejam sair do Brasil também acompanham a jornada dos conterrâneos que decidiram regressar, ou seja, já cumpriram a missão no exterior ou chegaram à conclusão de que a vida longe de casa não é mais viável.

Os motivos da repatriação também são inúmeros; má adaptação cultural, impossibilidade de vinculação migratória, saudades de casa e em sua grande maioria, incompatibilidade financeira, entre o que se recebe e o que precisa ser pago. 

Partindo ou chegando, o que sustenta as travessias é o pilar da saúde mental. A forma como encaramos a mudança, o modo como desapegamos, o jeito de dar novos significados ao presente ou estilo de lidarmos com o que não controlamos, acredite, vai moldar a sua experiência migratória.

Há quem desconsidere, quem ache pouco importante e até quem ache que morar fora é simples, chique e até tranquilo. Mas preciso confessar que tudo isso pertence a um imaginário coletivo repleto de idealizações.

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A vida que deseja: nem tudo será possível ao morar fora

Vivo em Portugal desde 2019 e venho de uma realidade em que podia realizar tudo que desejava, ou seja, se me apetecesse viajar eu ia, se desejasse comprar uma roupa nova eu comprova, se quisesse sair com os amigos para jantar eu podia…

Mas, ao chegar no exterior a realidade muda de figura, aquele poder todo que eu tinha sofreu algumas mudanças… Comecei a aprender que não podia ter tudo ao mesmo tempo, tampouco viver tudo o que queria e foi aqui que me dei conta que nem tudo seria possível ao morar fora. 

Aqueles que possuem graduação, mestrado e doutorado, podem encontrar dificuldades no que toca à empregabilidade. A depender do país e da cidade que escolha viver, seu percurso profissional pode não ser reconhecido, tampouco valorizado.

Realidade essa que coloca muitos brasileiros à margem, abrindo espaço para reflexão, “será que tomei a escolha certa?”, “será que esse era o melhor país e cidade para viver?”… Sempre que somos confrontados com realidades como essas, temos a chance de rever nossas escolhas, tanto para sabermos se devemos avançar ou retroceder. 

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No início tudo são flores

Aqueles que chegam em uma nova cultura tendem a viver nos primeiros meses a tão famosa lua de mel, momento esse que pertence à primeira fase do processo de adaptação cultural. É aqui onde tudo parece flores e lugar em que pensamos que tomamos a melhor decisão, mas há quem não vivencie esse momento e já passe para o segundo estágio, choque cultural, papo esse para outra conversa. 

Talvez você esteja se perguntando agora, “certo, mas se nem tudo é possível, o que posso fazer para não me frustrar ou continuar dando “murro em ponta de faca”?”, como falamos lá no Nordeste do Brasil. Vamos refletir juntos sobre o que fazer para viver uma vida no exterior mais alinhada à realidade. 

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Ajustando as expectativas longe de casa

O ajuste de expectativas vai acontecer ao chegar no exterior, antes da vivência de morar fora não será possível. Pois como um bom brasileiro, não adianta ninguém nos avisar, nós precisamos passar pelas circunstâncias para aprendermos. Então hoje eu trago algumas sugestões para facilitar o seu processo de ajustamento ao morar fora:

  • Olhe em volta e tente perceber de forma realista, se aquilo que você deseja é possível no momento. Algumas coisas só serão possíveis amanhã;
  • Cuidado com as pessoas que acompanha e com as referências que se inspira, se elas estiverem muito longe do seu padrão de vida, então há uma forte tendência para se sentir frustrada;
  • A construção de uma rede de apoio qualificada vai lhe auxiliar a ajustar a perspectiva do presente. As vezes estamos visualizando coisas que só existem na nossa cabeça;
  • Cuidado com os que reclamam, quando convivemos com pessoas que só falam mal da cultura local e não enxergam oportunidades, quando você der fé, a fim de pertencer, estará parecido com eles;

Nem tudo que parece é: perspectivas diferentes

  • Nem tudo que parece é, o que você enxerga é uma perspectiva da realidade. Então ao julgar circunstâncias ou interpretá-las, certifique-se de que sua visão está clara;
  • Seja justo com você, se deseja um emprego melhor, entenda o que fazer para conquistar, deixe de usar estratégias sem propósito;
  • Se deseja um bom relacionamento afetivo, seja você uma excelente oportunidade de relacionamento. Por vezes queremos tanto, mas oferecemos muito pouco;
  • Se a cultura do país em que escolheu viver não lhe agrada, o que está ao seu alcance para transformar a forma como se sente?;
  • Saia da bolha em que está, conhecer outras realidades vai lhe dar uma noção clara dos seus privilégios;
  • Compreenda que na vida adulta devemos fazer escolhas maduras e fazer tudo o que queremos pertence exclusivamente a fase da infância e adolescência;
  • Por fim, fortaleça seu autoconhecimento, o processo terapêutico vai lhe dar estratégias para chegar aonde deseja. 

Talvez a vida que deseja no exterior não seja possível, mas qual existência está disponível para você? Muitos de nós por não terem o que gostariam acabam ficando estagnados, sem se desenvolver e evoluir. Mas gostaria que você lembrasse que cada dia é uma nova oportunidade para fazermos mais e melhor. Cuide melhor de você mesmo!

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*A parte mais difícil de morar fora e que ninguém te conta:

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Vitor Luz possui formação em Jornalismo e Psicologia e ao longo da sua trajetória profissional pode se dedicar à busca de novos conhecimentos e fez uma formação em Inner Vision, Programação Neurolinguística – PNL e Certificação Internacional em Master Coaching Mentoring e Holomentoring – ISOR. Atualmente mora na cidade do Porto, onde aprofunda seus estudos em psicologia em um Doutorado na Universidade do Porto, além de possuir especialização em Psicologia Intercultural, proporcionando um acolhimento ajustado às necessidades daqueles que moram no exterior. Ele realiza atendimentos exclusivamente online, com clientes espalhados pela América, Europa, Ásia e Oceania, acolhendo imigrantes e expatriados brasileiros que busquem ressignificar perdas e aprimorar suas formas de se relacionar consigo mesmo e com os outros.

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