
Criar uma rede de apoio qualificada é um dos maiores desafios ao morar fora. Cultive amizades no exterior que se alegrem com suas conquistas.
Só quem já precisou colocar o pé na estrada entende o que é olhar em volta e não ter com quem contar. Aqueles que migram, nacionalmente ou internacionalmente, ou são convidados para uma missão internacional na condição de expatriação, em algum momento vão se deparar com a desafiadora realidade de se sentirem desamparados socialmente.
Compreender essa circunstância vai lhe auxiliar a entender o que fazer para se conectar a mais pessoas e a entender de quais grupos você precisa de afastar. Vamos juntos até o fim desse texto e garanto alguns caminhos possíveis para lhe ajudar!
Cultive amizades no exterior que se alegram com suas conquistas
Vivo em Portugal desde setembro de 2019 e desde então venho vivenciando o luto migratório da sociabilidade. Ele pertence a um dos sete lutos daqueles que decidem morar fora por alguma razão. É natural passar por ele tendo em vista que boa parte das pessoas que conhecemos ficam na nossa cultura de origem.
Essa realidade muda um pouco quando você tem uma profissão ou uma vida que lhe exige muitas mudanças territoriais, como profissionais com carreiras portáteis, se você é detentor de outras nacionalidades ou se a cultura em que vivia lhe força a migrar.
A depender de como foi a sua criação, do ambiente familiar e da qualidade das relações que você teve, você poderá sentir mais ou menos a falta de ciclos sociais. Alguns brasileiros no exterior não fazem tanta questão de estar em grupos, mas existem aqueles que fazem de tudo para ter um grupo para chamar de seu.
Aqueles que não se interessam tanto tem suas razões; já se decepcionaram no passado, não possuem tantas habilidades sociais, escolheram viver exclusivamente dentro do ciclo familiar (companheiro/a e filhos) ou até mesmo os colegas de trabalho.
Certamente você conhece alguém que todo final de semana está na rua batendo perna e sempre acompanhado, as vezes nem tão bem acompanhando, mas em boa parte do tempo cercado de gente.
Esse grupo faz realmente questão de não se sentir sozinho, criando motivos e encontrando oportunidades para juntar o pessoal, afinal de contas, morar fora é um privilégio e precisamos aproveitar.
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Quando vale a pena estar acompanhado socialmente
Enquanto psicólogo intercultural tenho aprendido algo na minha clínica ao atender brasileiros que moram fora. Aqueles que dedicam o tempo social exclusivamente a família e não separam um tempo para cultivar a rede de apoio individual, em algum momento irá precisar dela e não terá com quem contar. Homens e mulheres acabam sobrecarregando as relações afetivas trazendo para o casal problemas que não pertencem aquele lugar.
Um bom exemplo disso é quando acontece algo no trabalho e não temos um bom amigo para desabafar, então o nosso parceiro (a) será a pessoa que escolheremos para desabafar. Outra realidade muito comum diz respeito as inseguranças, fragilidades e dificuldades, se me mostro muito vulnerável ao outro, durante muito tempo, o quanto que isso alterará a forma como ele me vê…
Algo que não é raro de acontecer são as separações afetivas no exterior, é aqui que mais sentimos falta de uma rede de apoio qualificada longe de casa. Só quem já precisou se separar compreender o desafio de fazer uma mudança e não ter um amigo para contar ou, a depender da circunstância da separação, a rede social cultivada nos últimos anos tende a escolher um dos lados da história para proteger e manter-se vinculado…
Os solteiros a procura ou indisponíveis para uma vinculação, que estão na constante busca por contatos sociais, também vivenciam alguns desafios. A depender do trabalho que se tenha esse brasileiro pode ter mais ou menos tempo para investir na sociabilidade. Uma outra variável aqui é a cultura em que se vive, que ela pode ser mais ou menos favorável ao contato.
Quanto mais exposição solar naquela terra, há uma probabilidade de que as conexões sejam mais favorecidas. O desafio aqui não é nem tanto o próprio desejo de se conectar, mas se as pessoas daquele lugar estão emocionalmente disponíveis, na fase adulta, a cultivar uma nova relação.
A difícil missão de cultivar amizades no exterior
Certamente você já ouviu relatos de amigos que tentaram se aproximar de algumas pessoas e elas não foram recíprocas ou não cultivaram a relação ao longo do tempo. Situações como essas geram cansaço e a depender da disposição do brasileiro ao morar fora ele pode ir perdendo força e disposição.
Quando isso acontece ele vai escolhendo não se envolver mais ou se manter em ciclos que pertenciam a uma antiga fase dele. Movimento esse que pode ser muito adoecedor, afinal de contas, lembrar as pessoas que elas também precisam cuidar de nós e nos acolher é cansativo.
Vale a pena estar acompanhado socialmente quando você tem espaço para ser você, falar do que pensa sem medo, ouvir os outros sem precisar corrigi-los e ter uma sensação de segurança e abrigo. Qualquer coisa diferente disso merece ser reavaliado.
Um dos maiores desafios de quem decide morar fora é se sentir pertencente, e se não protegermos esse nosso lugar, quem o fará?
Vitor Luz, psicólogo.
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Quem se alegra com suas conquistas?
Até aqui falamos sobre a qualidade das conexões ao morar fora e sobre nossos comportamentos em relação a sociabilidade na fase adulta, mas o que tudo isso tem a ver com se alegrar com as conquistas dos outros? Exatamente tudo! Se você não tivesse tido a chance de refletir sobre o que falamos anteriormente, certamente teria uma dificuldade em lidar com esse momento.
Para que você possa se alegrar com as conquistas de alguém e vice e versa, vocês precisam ter tempo juntos, ou seja, caminhar lado a lado e viverem os desafios unidos. Como poderia me alegrar pelas vitórias de alguém que nem conheço a história?
A depender da qualidade das relações que você nutriu e priorizou ao longo da sua vida essa será uma realidade constante ou inexistente. Percebe como avaliar o que fizemos e o que estamos fazendo faz toda diferença?
Quando nos conhecemos fica muito mais fácil de encararmos o momento presente e compreendermos o que está ao nosso alcance para fazermos diferente.
Vitor Luz, psicólogo.
Se alegrar com as conquistas de quem amamos
Se alegrar com as conquistas das pessoas que amamos é uma das maiores provas de amor, cuidado, carinho e acima de tudo, de presença. Temos a chance de honrar a existência do outro e demonstrarmos o quando somos felizes com o crescimento e evolução dele.
Isso se conecta com uma frase que gosto muito, “quando você vence, quem vence com você…?”.
Vitor Luz, psicólogo.
Por outro lado, constatar que as pessoas a sua volta também vibram com seu crescimento, ficam felizes com suas conquistas e celebram juntos a sua vitória faz toda diferença.
Cultive amizades no exterior
Se neste momento você está pensando, “Eu não tenho pessoas as quais possa celebrar as vitórias delas e não tenho um grupo que fica feliz com minhas conquistas….”, então aqui vão alguns caminhos possíveis para você viver essa realidade:
- Fortaleça seu autoconhecimento, o processo terapêutico é um caminho poderoso para lhe instrumentalizar e fazer com que você se reencontre;
- Quem são as pessoas que verdadeiramente estão ao seu lado? Faça uma lista com cinco nomes e tenha tempo de qualidade com elas toda semana, mesmo que a distância;
- Faça um detox social, por vezes a presença de algumas pessoas na sua vida impedem a chegada de novas. Deixe de priorizar amizades por aparência e foque na essência;
- Cultive relações de pessoas que possuem sonhos parecidos com os seus, que já tenham passado por onde passou e que já tenham vivido o que deseja;
- Tenho clareza do que tem a oferecer, para atrairmos pessoas compatíveis precisamos saber quem somos e o que temos disponível para agregar na vida do outro;
- Mude sua rotina, se acha que não tem tempo para conhecer pessoas novas, lembre que existem aplicativos que favorecem encontros sociais;
- Se você está sem grana, lembre que caminhar no parque, ir a eventos gratuitos na cidade e pegar um caminho diferente para casa não custa nada;
- Por fim, cuide de você e não reclame, quando não aprendemos a cuidar da gente e passamos uma vida reclamando ao morar fora, essa é a combinação perfeita para enfraquecer relações e evitar que novas surjam.
Portanto, espero que essas palavras tenham feito algum sentido para você e que daqui para frente possa viver uma vida diferente. Morar fora exige de nós escolhas e para escolhermos melhor precisamos de conhecimento, por isso cultive amizades no exterior. Até a próxima coluna!
Será que a ansiedade ao morar fora é realmente sua ou do ambiente?
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