Morar fora: se eles soubessem

Morar fora se eles soubessem
Foto: Reprodução Pixabay

Quando a gente vai morar fora a gente já mudou e nem sabe. Nós, de maneira consciente ou não, vimos que aquela vida não nos servia mais, que éramos borboletas sem asas, que o que queríamos mesmo era poder voar bem alto. E, se a vida costuma ser o que a gente quer, voamos.

Depois que a gente respira fundo e confere os documentos, muitos de nós inclusive sem conseguir olhar para trás na área de embarque para não ver quem a gente ama chorando, caminha. O trajeto do portão de embarque até o avião parece sem fim. As pernas tremem, o coração acelerado não nos deixa racionar direito.





E a gente parte. Parte sem dominar 100% o idioma, cheios de medos, receios, não tendo nada certo, com o dinheiro contado e uma mochila nas costas. Todo o nosso mundo resumido basicamente a um par de tênis, uma camiseta, uma calça e um casaco. Nem casa, nem emprego, nem amigos. É como se a gente tivesse apertado no botão “reset” da vida.

Morar fora: uma mala de roupa e um baú cheio de apostas.

Quando a gente chega começa logo a entender o peso da nossa decisão. Vemos que somos apenas mais um maluco com a barba por fazer ou a estranha de vestido e suspensório no meio de uma multidão de doidos. Todo mundo na luta, todo mundo na batalha por uma vida melhor batendo suas asas com toda a força possível para alcançar o lugar mais alto.

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E, no nosso frenesi, não deixamos que as nossas asas parem um minuto de bater. Aos poucos entramos no ritmo. Depois de algum tempo já temos um quarto, arrumamos um empreguinho fixo e uns “freela” e até temos o contato de outros doidos para, vez ou outra, tomarmos uma cervejinha.

A nossa vida agora é outra. A gente não faz ideia de quanto tempo ainda nos resta, mas temos certeza de que ele é banner-quadrado-autor-instagramcada vez mais curto. Mais curto porque, de um dia para o outro, a gente entendeu que o mundo é muito massa e que, talvez, não dê tempo nessa vida de fazer aquela “trip” pela Ásia, de morar uns meses na Austrália, de passar um inverno no Alaska ou de tomar um mojito em Cancun.

Sei lá. Foi num estalar de dedos que a gente notou que perdeu muito tempo, mas faremos de tudo para recuperar. Afinal de contas, hoje a gente não trabalha mais para comprar uma casa ou carro novo e muito menos para dar aquela festona de casamento. A gente mudou e com essa mudança entendemos que morar de aluguel nem é tão ruim assim, que ter uma bike ou carrinho mais velho também nos faz chegar exatamente no mesmo lugar e que ao invés de torrar uma fortuna com uma festa de casamento, a gente prefere viajar com o amor da nossa vida mesmo.

Se eles soubessem que se mudar é, antes de tudo e de mais nada, ter disposição para mudar, também perceberiam que a vida passa muito depressa. A vida anda na velocidade da luz, mas eles estão tão atarefados em ter que nem encontram tempo para ser. Enquanto isso, nós vamos vivendo aqui cercados de malucos e nem percebemos que também somos parte dessa loucura. Morar fora é tão bom, se eles soubessem.

Leia também: Morar fora: a jornada de quem não pode fracassar.



Claudio Abdo

Cláudio é brasileiro e mora em Portugal desde 2014. Mestre em Ciências da Comunicação, faz Doutorado em Estudos de Comunicação. Apaixonado por rock and roll, conheceu o beatle Paul McCartney pessoalmente. Sempre com uma boa história na ponta da língua, escrever é uma de suas paixões. Cláudio é autor do livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”.

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