Morar fora: se eu já pensei em desistir?

pensei em desistir
Foto: Adil – Pexels.

Pensei em desistir? Quando a gente mora fora, os dias se alternam entre a glória e o fracasso, a coragem e o medo, a vontade de voltar ou ficar.

Já. Aliás, hoje mesmo foi um daqueles dias em que eu pensei em desistir. Acho que quando a gente mora fora, os dias se alternam entre a glória e o fracasso, a coragem e o medo, a certeza de ficar e a convicção de voltar. E nós vamos nos agarrando como podemos nessa montanha-russa de sentimentos.


Se pensei desistir: confesso que me passou pela cabeça largar tudo

Confesso que me passou pela cabeça largar tudo e voltar correndo. Então me perguntei: mas eu vou voltar para onde? Eu vou voltar para o quê? – digo isso porque quando decidi morar fora, me desfiz de tudo o que tinha e só deixei para trás a saudade dos momentos, os amigos e a minha família. 

Talvez a resposta para as perguntas que fiz seria: voltar para a casa dos meus pais. Então, respirei, peguei uma xícara de café e olhei pela varanda. O que vi foi o cenário que tantas vezes me encorajou, a imagem do país que me acolheu e que me oportunizou tantos aprendizados, tanta evolução, tamanho amadurecimento.

Morar fora: construindo a nossa desconstrução.

Passeio entre a convicção de voltar e a certeza de ficar

E no respirar, pegar um café e olhar pela varanda foi assim que passeei entre a convicção de voltar e a certeza de ficar. Ficar, ficar e ficar. Foi olhando para fora de casa procurando o horizonte que percebi que já não conseguia mais ver de onde parti e com isso conclui: é realmente um caminho sem volta.

Voltar agora seria percorrer uma vereda ainda mais longa da que eu já percorri até aqui. Significaria abrir mão dos mais de 2.500 dias desde a minha partida, corresponderia a abandonar minhas conquistas e retroceder para um lugar cheio de motivos que me fizeram partir.

Morar fora: que fé é essa?

Decisão de ficar até mudar de ideia novamente

Pode ser que amanhã ou depois eu novamente pense em desistir. E quer saber o que eu acho disso? Acho normal, aceitável, compreensível e que faz parte da vida. Não creio na ‘obrigação’ de saber do futuro, não considero uma ofensa grave pensar na vida. Não mesmo.

Aliás, julgo necessário fazer isso constantemente (de pensar na vida), mais frequentemente até do que já fazemos quando moramos fora. Pensando bem, foi isso de ‘pensar na vida’ que me motivou a partir. Foi isso que me encorajou a enfrentar os meus medos, a encarar o novo, a mergulhar no desconhecido de peito aberto e olhos fechados.

Morar fora: excesso de ontem, excesso de hoje e excesso de amanhã.

Nunca busco culpados

E depois de aceitar que pensei em desistir é normal por aqui, parei de procurar culpados pelos sentimentos que me ocorrem. Passei a tentar compreender os fatos, o contexto, as razões para que eu esteja ponderando ‘largar tudo’ e regressar, mas nada de focar numa pessoa.

Quer dizer, eu faço justamente o contrário. Eu penso nas pessoas que querem que eu fique, que me encorajam a seguir em frente, que apoiam incondicionalmente a minha decisão de ficar e fazem de tudo para que eu não desista. E é justamente quando penso nelas que meu coração se acalma.

Morar fora: que nunca nos falte coragem.

Encontrando força na fraqueza

Pensar em voltar depois de tanto tempo morando fora parece uma fraqueza e até admito que seja. Me cobro que já passou da hora de parar de pensar nisso, mas entendo também que é justamente quando eu penso em desistir que eu encontro a força necessária para continuar. É uma busca por coragem, é quando eu me dedico a me encorajar e geralmente dá certo.

Dá certo porque quando estou triste me obrigo a ser humilde e lembrar de onde eu parti, das experiências que tive e tenho, do orgulho em ser aqui o que eu não era e não podia ser lá. Foi aqui que entendi o sentido da vida, que aprendi que é possível viver de verdade sem precisar de muito, que a vida passa num piscar de olhos e que o vale mesmo são as experiências.

Morar fora: ir, ficar ou voltar.

Por que eu não desisto?

Eu não desisto porque, imediatamente quando penso nisso, começo a buscar e tento agradecer por tudo o que já vivi e conquistei aqui fora. Eu não desisto porque se eu fosse de desistir, eu nunca nem teria partido. Porque nem mesmo os vários anos morando fora me fazem esquecer toda a coragem que eu tive que buscar para partir.

Se você mora fora e está pensando em desistir, não se culpe. É o momento, é a vida e tudo o que está acontecendo, é o seu contexto. Não existe um culpado, nem gaste seu tempo procurando por um. Se perdoe mais, tire um dia ou umas horas de folga, se afaste do celular, reflita, respire fundo. Feche os olhos e tente lembrar de você nos dias que antecederam a sua partida.

Tente se reconectar com ‘você do passado’ e vasculhe o seu coração em busca dos sentimentos que te encorajaram a partir. Fiz isso hoje, provavelmente vou fazer amanhã e nessa busca constante nasceu esse texto. Não sei se você vai chegar até aqui, mas se chegou ouça o meu conselho: não desista, respire fundo e siga em frente. 

A nossa história só pode ser escrita e o nosso papel só pode ser desempenhado por nós. Não sei quando vou pensar em desistir novamente, mas sei que serei muito mais compreensível ‘comigo do futuro’ porque é a vida, porque é assim mesmo e porque morar fora é para todo mundo, mas não para qualquer um.

Leia também: Morar fora: onde os fracos não têm vez.

*Ouça também o nosso Podcast Partiu Morar Fora, disponível no Spotify:

Cláudio Abdo

Cláudio é brasileiro e mora em Portugal desde 2014. Mestre em Ciências da Comunicação e Doutor em Estudos de Comunicação, é apaixonado por rock and roll e conheceu o beatle Paul McCartney pessoalmente. Sempre com uma boa história na ponta da língua, escrever é uma de suas paixões. Cláudio é autor do livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”.

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