
O fracasso em campo da seleção brasileira ativa nossos lutos migratórios. Quando o Brasil perde a copa, o que perdemos no exterior?
Nos últimos dias os brasileiros estão vivenciando um grande luto coletivo após a derrota na copa do mundo. Aqueles que se deslocaram aos Estados Unidos para assistir os jogos presencialmente estão regressando para casa e aqueles que acompanharam online estão retomando suas vidas a normalidade, mas uma sensação que atravessa a todos os torcedores é de perda, fracasso, frustração, decepção e muitas vezes de vazio.
Quando o Brasil perde a copa, o que perdemos no exterior?
O luto coletivo emerge quando alguma circunstância causa, de modo abrangente, uma grande comoção, em um povo ou cultura. Alguns sintomas comuns podem ser vivenciados por várias pessoas ao mesmo tempo: Baixa de concentração, isolamento social, ausência de motivação para retomar a rotina e sensação de descrença generalizada. Mas, não apenas isso, muitos também afirmam sentir tristeza profunda, irritabilidade, choro frequente, raiva e até medo do futuro.
A copa do mundo mobiliza muitas emoções na vida dos brasileiros que moram fora e porque esse fenômeno acontece? Quando a seleção entra em campo até quem não gosta de futebol veste a camisa verde e amarelo. Não porque gosta do esporte, mas pela experiência que ele nos devolve; estar entre amigos, sair de casa, conhecer gente nova, torcer por algo maior, distrair da realidade migratória e acima de tudo, lembrar do que somos feitos, de raça.
Quando a bola rola no campo as nossas emoções também vão vem à tona, nos sentimos mais eufóricos, animados, comunicativos, entusiasmados, mas não menos ansiosos, estressados, preocupados e angustiados. Há quem também sinta alterações no corpo físico, como aumento da transpiração, perda da voz, arritmia cardíaca, pressão alta e até mesmo enxaqueca.
Essa realidade pode ser mais ou menos agravada a depender do desempenho dos jogadores da seleção a qual estamos torcendo. Por aí, também foi isso? Eu não sou fã de futebol, mas estive bem participativo desta vez e pude sentir na pele algumas dessas sensações e fiquei a pensar, “se eu que não gosto tanto estou assim, imagine os que são aficionados…”.
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Quando Brasil perde, o que perdemos no exterior
Muitos brasileiros tendem a negligenciar os lutos simbólicos, ou seja, aquelas perdas que não envolvem morte. Os mais conhecidos são: Família, Língua, Cultura, Terra, Status Social, Sociabilidade e Integridade Física, também conhecidos na literatura como lutos migratórios, realidade essa que atravessa a vida de todos aqueles que decidiram morar fora, seja na condição e imigrantes ou expatriados.
Fingir que não perdemos ao colocar o pé na estrada não os faz desaparecer, tampouco nos protege de seus efeitos. Mas reconhecê-los e entender como eles nos atravessam é um excelente caminho para nos protegermos das adversidades longe de casa.
Ao presenciarmos o primeiro gol alguns de nós já começaram a vivenciar o luto simbólico antecipatório, ou seja, conseguiram sentir que talvez a vitória não chegaria e com isso tiveram mais chances de acomodar a perda que possivelmente se aproximava.
Alguns permaneceram firmes e fortes na crença de que o jogo poderia virar, como já aconteceu em oportunidades passadas. À medida que o tempo do relógio ia acabando a esperança também ia se esvaindo, ativando em muitos torcedores, que decidiram morar fora, os gatilhos de fracasso.
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Confronto com o fracasso
Ao morar fora somos confrontados semanalmente com o fracasso, quando tentamos solicitar um serviço para arranjar algo em casa, quando tentamos resolver um problema documental, quando aplicamos para uma vaga de emprego, quando tentamos nos relacionar com alguém novo e até mesmo quando tentamos retomar os cuidados com a nossa própria vida.
Essa não é uma realidade exclusiva aos brasileiros que decidiram morar fora, mas aqueles que estão longe de casa possuem um desafio acrescido nessa realidade, afinal de contas, a rede de apoio é precária, os recursos financeiros muitas vezes escassos e a saúde mental abalada.
O fracasso da seleção brasileira nos lembrou o quanto que vitórias existenciais nos têm feito falta, seja em podermos andar na rua mais confiantes, termos uma boa história para contar e uma conquista a compartilhar.
Aqueles que decidiram morar fora estão lidando com tantos desafios ao longo dos anos, que essa derrota foi mais uma para a conta. Será que ainda cabe mais uma nessa nossa biografia enquanto migrantes longe de casa?
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Quando o Brasil perde a copa: como acomodar a perda na copa
Se você se sente triste, decepcionado, frustrado, desanimado, sem esperança, chateado e buscando isolamento, aqui vão algumas orientações:
- Você tem o direito de estar de luto, proteja seu espaço, evite ficar explicando como se sente;
- Não espere que as pessoas entendam sua dor, só você sabe o significado dessa realidade, proteja seus sentimentos;
- Ter com quem conversar pode ajudar, neste momento os amigos e pessoas próximas, que estão passando pela mesma realidade podem ser uma boa fonte de apoio;
- Reestabelecer a rotina vai auxiliar a se conectar com o momento presente, mas pegue leve no retorno, você está de luto;
- Se você pudesse escrever uma carta para seleção brasileira, o que você escreveria? A escrita terapêutica vai te ajudar a colocar para fora o que sente. Depois você pode incinerar a carta;
- Qual foi a última vez que conversou como se sente? Por vezes procurar uma ajuda profissional possa ser útil para entender como tudo isso lhe afeta.
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No campo da migração aqueles que decidiram morar fora precisam seguir firmes e fortes, afinal de contas, atravessamos um oceano para vivermos uma vida diferente. Fortalecer a saúde mental e buscar autoconhecimento é fundamental para realizamos os nossos sonhos e desejos no exterior.
A vida não tende a ficar mais fácil, pelo contrário, mais desafios surgirão e aqueles que aprenderem a se dominar e conhecer, estarão passos a frente.
O que vivemos nesta copa do mundo expõe o quanto que precisamos trabalhar as nossas emoções em busca de equilíbrio, temperança e paz. Que possamos retomar nossas vidas e nos apropriarmos da nossa realidade, a fim de vivermos uma vida inspiradora e repleta de consciência. O momento presente se constrói no hoje e essa responsabilidade cabe a cada um de nós. Vamos juntos!
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