Distanciamento social: quando a tecnologia não é suficiente

Distanciamento social
Crédito foto: La Maison Tellier. Arte: Vagas pelo Mundo.

A tecnologia se mostra suficiente para muita coisa e parar para enumerar tais coisas seria perda de tempo, pois é do conhecimento comum que em diversos tipos de serviços uma boa página na internet e alguns cliques resolvem todo e qualquer problema.

Porém, ainda que o avanço das novas tecnologias seja um fato inegável e que tais avanços tenham, entre outras coisas, tornado o mundo um pouquinho menor, a substituição do ser humano por máquinas no quesito afeto, carinho, abraço e conversa olho no olho sem mediação está muito distante de ocorrer.





Distanciamento social: quando a tecnologia não é suficiente

E é quase impossível falar de tecnologia e relações humanas e não levar a conversa para o Japão. O país “mais oriental do mundo” é pioneiro no uso de novas tecnologias e enquanto nós, meros ocidentais mortais e normais ainda nos impressionamos com uma internet 4G que nem funciona direito em muitos lugares, os japoneses andam a passos largos para o 5G e não sei o quê.

Entretanto, se o Japão e os japoneses são os reis da inovação e do progresso tecnológico, é nesse mesmo país que, em média, milhares de pessoas cometem suicídio todos os anos. E você deve estar se perguntando: que diabos de relação esse cara pretende fazer entre tecnologia e suicídio? – eu já explico, mas antes preciso lembrar do quanto somos seres sociáveis.

Veja o que escreveu Hugo Grotius, filósofo e jurista holandês, já no ano de 1625 sobre a sociabilidade dos seres humanos:

“Agora, entre as coisas peculiares ao homem, está o seu desejo de sociedade, ou seja, uma certa inclinação para viver com os de sua própria espécie, não de qualquer maneira, mas pacificamente, e em uma comunidade regulada de acordo com o melhor de seu entendimento”. (Hugo Grotius, Direitos da Guerra e da Paz, 1625)

Isso importa? Num mundo onde cada vez mais os humanos são substituídos por máquinas em prol de uma maior produtividade, note como você, eu e todo mundo vamos, inicialmente devagarinho, deixando de ter contato uns com os outros. Primeiro foi a banquinha de jornais que fechou, depois os funcionários do banco que foram desligados e assim por diante.

Morar fora: talvez a vida não esteja saindo como o planejado.

Viagem solitária

Certa vez em uma viagem de carro que fiz, fiquei o trecho todo (400 quilômetros aproximadamente) sem trocar uma palavra com ninguém, pois os pedágios eram todos automáticos e até para abastecer o carro e tomar um simples cafezinho eu tive que fazer através de máquinas e robôs.

Agora imagine você que escrevo esse texto estando em um país ocidental onde o contato humano, via de regra, ainda existe e é bastante comum e esperado.

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Portanto tente imaginar viver em um país onde a tecnologia está disseminada e as pessoas, até por questões culturais, já não são lá muito de aproximação, toque e troca de afeto.

Una a isso uma sociedade onde, em determinadas situações, o suicídio é visto como uma maneira honrosa de morrer. Sim, estou falando do Japão novamente onde o suicídio pasmem, foi a maior causa de morte de jovens entre os 15 e os 34 anos e, para você ter uma ideia, o único país pertencente ao grupo dos sete países mais poderosos economicamente no mundo a registrar tal feito (G7 – Alemanha, Canadá, Estados Unidos, França, Itália, Japão e Reino Unido).

E a troca de afeto que sempre nos fez tão bem, nos foi usurpada de um dia para o outro. Ironicamente em tempos de coronavírus e distanciamento social, fomos condenados àquilo que quando não podíamos sempre quisemos, ficar em casa. Quem de nós não ficou na preguiça pela manhã o máximo que podia, pensou e se perguntou: “oh meu Deus, quando vou poder ficar em casa e descansar?”. Pedido feito, pedido aceito. Pedimos tanto, por muito tempo e com tamanha fé que uma pandemia nos obrigou a ficarmos em casa.

Morar fora: as vezes a gente só precisa de um abraço.

Mas quem disse que seria do nosso jeito?

Mas quem disse que seria do nosso jeito? Ninguém, mas você, eu e todo mundo por acreditar que somos seres injustiçados por natureza pensamos que sim. No início ouvimos que “ficar em casa não parece tão ruim”. Ou o “fique em casa e só saia para o que for essencial” que ecoava do carro da polícia que passava pela rua.

De lá para cá, não tardou e começamos a entender que o coronavírus foi daqueles juízes impiedosos que nos tirou a capacidade de autodeterminação, travou a nossa independência e autonomia e colocou fim na nossa competência de agir por conta própria.

Privação da liberdade

Em resumo, levou a nossa liberdade e nos tornou submissos do invisível, nos pôs de joelhos frente aos que comandam o espetáculo político e econômico na face da Terra e, trouxe para dentro da nossa casa todas as consequências que a privação da liberdade é capaz de trazer aos seres humanos.

Nos tirou a liberdade, mas sobretudo desfez qualquer possibilidade de contato, de carinho, de afeto, de abraço. Nos matou enquanto seres humanos tirando aquilo que nos é essencial.

Sendo assim, começamos por roer as unhas, passamos rapidamente para a fase do dormir mal e agora já vamos evoluindo apressadamente para as crises de ansiedade, depressão, síndrome do pânico e pensamentos desfavoráveis em relação ao futuro.

E a privação da liberdade meteu o pé na nossa porta, entrou e nos fez recordar como dar uma volta, ver gente, tomar um café e simplesmente ir para o trabalho sem medo de morrer era bom. Era e dificilmente voltará a ser.

Os poderosos conseguiram nos encurralar, giraram com os dedos os ponteiros do relógio do mundo, nos encheram de medo e tiraram o pouco que tínhamos, a liberdade e o que sobrou do afeto.

Morar fora: excesso de ontem, excesso de hoje e excesso de amanhã.

Somos seres sociáveis

Porém, ao passo que a tecnologia nos ajuda em muita coisa, a pandemia auxiliou a darmos uns passos para trás e revisitarmos nossas origens enquanto animais dotados de racionalidade que somos.

Percebemos que o carro do futuro, a transação bancária em segundos e na palma da mão, o transporte hiper sônico, a chamada por vídeo, os infindáveis títulos de filmes disponíveis no streaming de marca vermelha e tantas outras funcionalidades da internet, de nada adianta quando não podemos simplesmente sair de casa ou, quiçá, recebermos as pessoas que nutrimos alguma admiração e carinho na nossa residência.

Que sairemos dessa pandemia muito diferentes do que quando entramos não resta dúvida, falta saber se seremos capazes de manter o nosso ceticismo em relação às “infinitas possibilidades” que os apaixonados por tecnologia insistem em vender e se compreenderemos, de uma vez por todas, que somos seres afeitos ao abraço, ao toque, ao carinho, aos tapas nas costas e até aos beijos molhados trocados pelos casais arrebatados por amor.

Será que teremos competência suficiente e boa memória para nos lembrarmos que, independentemente do século em que vivemos e se vivemos no futuro, ainda somos tão e simplesmente humanos? Será? Só o futura dirá!

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Cláudio Abdo

Cláudio é brasileiro e mora em Portugal desde 2014. Mestre em Ciências da Comunicação, faz Doutorado em Estudos de Comunicação. Apaixonado por rock and roll, conheceu o beatle Paul McCartney pessoalmente. Sempre com uma boa história na ponta da língua, escrever é uma de suas paixões. Cláudio é autor do livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”.

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