Morar fora: Deus, a laranja e o dinheiro

a laranja e o dinheiro
Foto: Cláudio Abdo | Amanda Corrêa

Uma crônica nova do escritor Cláudio Abdo. O que Deus, a laranja e o dinheiro têm em comum?

Uma coisa que se tornou parte da minha rotina morando no exterior foi a de orar. Não que antes eu não rezasse, mas quando vim morar fora, a distância de tudo e de todos automaticamente me aproximou de Deus e fez a minha fé Nele crescer de maneira absurda. Talvez você que esteja lendo o texto não acredite em Deus, mas posso te dizer que Ele sempre dá um jeito de se mostrar presente na minha vida, principalmente desde que eu saí do meu país de origem.


Morar fora: Deus, a laranja e o dinheiro

A correria da vida de imigrante deixou, durante alguns bons meses, a minha cabeça do avesso. Em poucos minutos minha mente e meus pensamentos viajavam do orgulho e da coragem em ter partido para uma vida fora do Brasil até o arrependimento e a incerteza de que tinha feito a coisa certa. Nem tudo saiu como o planejado, coisas que não estavam nos planos aconteceram e, virava e mexia, lá estava a minha mente dando um 360 e questionando minha escolha.

E quando a vontade e o desejo de desistir teimavam em aparecer, eu rezava. Pedia com sinceridade e fé que Deus me ajudasse, iluminasse o meu caminho, servisse de bússola e GPS na estrada que um imigrante percorre e que está cheia de desafios e dúvidas. E, via de regra, eu começo minhas orações agradecendo por tudo, no meio suplico para que Deus abençoe quem cruzou ou ainda vai cruzar o meu caminho e, por fim e não menos importante, peço por saúde e coragem para seguir em frente.

E como todo ser humano cheio de orgulho e falhas, quando as coisas não saem conforme o planejado peço a Deus que me indique qual caminho seguir. E lá vem Ele me dar sinais. Aqui entra a laranja no texto. Ultimamente venho travando uma guerra interna, uma batalha para compreender melhor as placas da estrada, para conseguir ler com mais clareza o mapa do caminho. Ando cheio de dúvidas.

E quando as incertezas surgem lá vou eu orar e implorar para que Deus não esqueça de mim. E Ele dá um jeito e manda um sinal. SEMPRE. Ontem estava caminhando por uma calçada com a minha família e um senhorzinho com poucos dentes na boca estava com sua carroça e seu cavalo tentando vender frutas e verduras em uma vaga de estacionamento diagonal. Não era bem meio dia quando nos cruzamos e nos cumprimentamos. Fui tomar um café e ele ficou na labuta.

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A carroça, o senhor e o momento

Na volta, minha filha quis fazer carinho no cavalo que estava atrelado à carroça. Ela, cheia de inocência, deu um sorriso para o senhor humilde que vendia seus produtos do campo e ele, prontamente, se abaixou, escolheu rapidamente e pegou a laranja mais bonita do montinho. Trouxe a fruta segurando com as duas mãos, como um presente caro e frágil e, oferecendo para a minha menina disse: “eu sei que você gosta de laranja, leve essa para você!”.

Minha esposa então puxou o porta-moedas para pagar. De pronto e um pouco irritado o senhor humilde, com poucos dentes na boca e roupas velhas disse: “não preciso de dinheiro, guarde suas moedas”. Como forma de agradecimento minha esposa insistiu e comprou dois pepinos e deu a moeda para o velhinho. Ali, naquele momento, eu entendi o sinal de Deus, eu recebi a resposta Dele para a minha dúvida em relação ao dinheiro. Aqui entra o dinheiro no texto.

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A laranja e o dinheiro: dinheiro não é tudo

Dinheiro não é tudo. Parece que é, engana bem os mais desatentos, é sedutor, compra muita coisa e possibilita algum conforto, mas acredite em mim: DINHEIRO NÃO É TUDO. E dar menos bola para o dinheiro é coisa de quem vai morar fora, dos “doidinhos” que abriram mão de tudo, de quem decide SER ao invés de TER, de quem resolveu ver o mundo com outros olhos, por outra perspectiva.

Eu sei que o dinheiro é a motivação para que 90% das pessoas acorde todos os dias e vá para um trabalho que odeia. Eu tenho plena noção que é pelo dinheiro que pais e mães abrem mão de estarem presentes em momentos importantes da vida dos filhos, eu compreendo que a vida é cheia de desafios e que nos disseram que TER é muito mais importante do que SER. Eu sei, eu vivo no mesmo mundo que o seu.

Porém, por teimosia, orgulho ou até estupidez, insisto em SER. Não abro mão de levar e buscar minha filha da creche com calma, não possibilito que um compromisso profissional, ou seja, “por dinheiro”, eu deixe de estar ao lado da minha menina em suas aulas de piano. NÃO, NÃO E NÃO. A vida é muito curta para eu me vender para o dinheiro. Eu jamais me perdoaria em terceirizar o meu papel de pai.

Morar fora é legal, mas e o emocional?

E por dinheiro algum do mundo eu toparia fazer, todos os dias e anos a fio, um trabalho de merda, sem propósito e que não me faz feliz. Nunca na vida eu dedicaria uma única gota de suor que fosse por algo que me distanciasse da minha esposa, da minha filha e dos meus valores. Eu sei que pode soar arrogante, mas escolher SER tem consequências e acredite: não são poucas.

Inicialmente 90% das pessoas vão querer julgar o seu estilo de vida. Ora, quem você pensa que é para querer SER ao invés de TER? 9 em cada 10 pessoas não vão aceitar que você, aos quase 40 anos de idade, ainda não comprou (e quitou) sua casa própria de, no mínimo, três quartos. Que você abriu mão de estar de olho nos bens dos seus pais para morar na Europa e realizar o sonho de SER.

Como que você não quer ter um Tesla? Como que você vive sem um iPhone 18? Como que você dorme despreocupado em um apartamento alugado? Como que você ainda não investiu em imóveis para garantir o seu futuro? Até quando você vai insistir no seu sonho e continuar com esse papo furado de SER? Olhe para o fulano e sua carreira fantástica, você não sente inveja?

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Você não leva nada dessa vida

NÃO, NÃO, NÃO, NÃO, NÃO E NÃO. Um NÃO BEM GRANDÃO para cada pergunta. Eu não dou bola para carro e ter um Tesla ou um outro qualquer é indiferente. iPhone’s vem e vão e eu nunca fiz questão de acompanhar os lançamento$$$. Viver dentro das minhas possibilidades é lema de vida e o APzinho alugado tá louco de bom, afinal de contas eu estou aqui de passagem e nem no meu país eu moro.

Parabéns pelos seus imóveis, espero que eles possam te acompanhar no seu final. Como é bom SER e, se você não se desapegar, você nunca vai saber. Assim como nunca vai saber quantos comprimidos o “fulano da carreira brilhante” toma para dormir e como tenta tratar o “burnout” que está na próxima esquina.

Morar fora: pare de se achar tão importante.

E sempre que o tal dinheiro começa a ganhar muita importância na minha vida, eu me ajoelho e converso com Deus. Peço ajuda, imploro por um direcionamento, grito mentalmente para que eu consiga ver a luz. E o que Ele faz? Ele manda um senhorzinho pobre, mal vestido e humilde presentear a minha filha com uma laranja. E o melhor disso tudo: um velhinho que não dá a mínima bola para o dinheiro.

A vida passa como um sopro

Dinheiro acaba, dinheiro vai e vem, dinheiro não torna ninguém melhor do que ninguém. SER é sempre a melhor opção, pois a vida passa como um sopro. Ame o quanto puder amar, tente manter a curiosidade pelo mundo como uma criança faz, de maneira genuína. Se interesse pelos outros, corra atrás de um trabalho com propósito, coloque o coração na frente da razão e se alguém te fizer mal, retribua com o bem. Jamais abandone a sua bondade.

Para finalizar um conselho: ore e peça para Deus que indique o melhor caminho para a sua vida. Quando você fizer isso com a fé e na medida certa, talvez alguém ofereça o pouco que tem sem pedir nada em troca só para confirmar que SER é melhor que TER, nem que seja uma laranja.

Permita que Deus responda suas preces e tenha muita atenção aos sinais, afinal de contas a vida é feita de detalhes e Ele sempre capricha na indicação.

“Morar fora: Deus a laranja e o dinheiro”, uma crônica de Cláudio Abdo, autor do livro “Morar Fora: sentimentos de quem decidiu partir“, disponível em ebook.

*Confira também mais vídeos do Cláudio Abdo no nosso canal do Youtube:

Cláudio Abdo

Cláudio é brasileiro e mora em Portugal desde 2014. Mestre em Ciências da Comunicação e Doutor em Estudos de Comunicação, é apaixonado por rock and roll e conheceu o beatle Paul McCartney pessoalmente. Sempre com uma boa história na ponta da língua, escrever é uma de suas paixões. Cláudio é autor do livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”.

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One thought on “Morar fora: Deus, a laranja e o dinheiro

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    16 de julho de 2022 em 3:44 pm
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    Que texto inspirador! Nossa de emocionar mesmo. Eu acredito muito que Deus tem sua forma de agir e de falar conosco e nós se estivermos atentos e próximos Dele perceberemos que é Ele que está falando, seja através de pessoas, algo que não deu certo e até mesmo alguma atitude de alguém que nem sequer conhecemos. Mas Deus fala e responde nossas orações. Ao ler o seu texto eu mesmo ouvi Deus falando comigo, em cada parágrafo Ele falou ao meu coração e acredite. Muitas das dúvidas que eu tinha a respeito do que viverei nos próximos passos que darei, foram respondidas. Obrigado por esse belíssimo texto e por permitir ser usado como instrumento de Deus para falar ao coração de muitos que com certeza assim como eu pediram um direcionamento de Deus para os planos que estão a se concretizar. Deus abençoe cada dia mais você e sua família!

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