Morar fora: é fácil entrar em depressão

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Foto: Pixabay

Morar fora te obriga a lidar com as emoções mais fortes. E o pior, é na marra, à força e muitas vezes não tem volta. Quando a gente parte a gente tem certeza que se preparou, que o coração é de pedra, que a saudade é coisa boba e que morar fora é tão simples quanto cozinhar um macarrão instantâneo. Não é. E falo por experiência própria, NÃO É.





Achavámos que eramos de pedra

O coração que a gente jurou que era de pedra, na verdade, é de manteiga. A saudade bate sem dó e a gente parece que saiu do ringue do UFC e, aos poucos, a gente vai entendendo que morar fora é tão complicado quanto uma receita de um chef com estrela Michelin. E é aí que a porca torce o rabo, que é quando a gente se dá conta que o mundo é muito, mas muito maior que o nosso quarto e que, como tudo na vida, isso é muito bom e muito ruim.

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E a saudade não obedece regra para bater. Conheço gente que começou a apanhar da saudade já no desembarque, como também conheço pessoas que tiraram a saudade de letra e mesmo estando fora há anos jamais foram nocauteados por ela. A real é que depois de algum tempo aqui fora, comecei a me dar conta que é fácil entrar em depressão.

É fácil porque a gente se sente um morto vivo, porque tudo continua acontecendo lá de onde a gente saiu e aqui as coisas levam um tempinho para se ajeitar. É fácil entrar em depressão porque a grana curta aliada ao emprego que ainda não engrenou deixa a nossa mente em frangalhos, é fácil porque o frio dói no osso e porque tudo é tão diferente.

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Juntando forças para continuar

Porém, a gente tira força de onde nem imagina. A coragem que nos foi exigida para partirmos, a realização do sonho de morar em outra cidade, estado ou país, as oportunidades que vão começando a aparecer nos enchem de esperança, nos permite enxergar uma luz lá no fim do túnel e isso já basta. Por isso que eu digo que é fácil entrar em depressão e que difícil mesmo é se manter forte.

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Se a saudade está te pegando, reaja. Não permita que ela te sufoque, encontre um jeito de matá-la antes que ela te mate. E estrangulando a saudade, o coração vai começar a criar uma casca e isso vai te ajudar. Se permita chorar, tire um dia de folga e, quem sabe, faça até um trabalho voluntário para perceber que nós somos tão pequenos diante do mundo.

Aos poucos você vai perceber que sentir saudade é normal, que tem uma galera morando fora também e que você não caminha só. Devagarinho você vai fazendo amigos aqui fora e sem perceber já passou um mês, um ano, cinco anos ou até mais e você continua resistindo. Tentar se manter forte é o grande desafio de quem mora fora. Engolir sapos enormes faz parte da batalha e só ganha a guerra quem aguenta porrada.

É fácil entrar em depressão

E sabe por que é tão fácil entrar em depressão morando fora? Porque a nossa imaturidade nos bloqueia e não permite que as coisas não saiam como o planejado, porque somos tão pequenos que acreditamos que temos controle da nossa vida e temos uma dificuldade enorme em lidar com os imprevistos. E morando fora pouca coisa sai como o planejado, a nossa vida caminha na mais perfeita desordem e os imprevistos são tantos que a gente até estranha quando passamos um dia sem eles por perto.

O “morar fora” nos possibilita duas coisas: a primeira é nos obrigar a sermos versáteis e a segunda é nos amadurecer 100 anos em 1 dia. Acredite, você vai amadurecer e se isso não acontecer, você vai ficar mais tempo em sofrimento. Morar fora é isso, é ter que aprender a lidar com os nossos sentimentos, mas mais do que isso morar fora nos obriga a sermos humildes e resilientes num nível muito foda.

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Para finalizar, acredito que um segredo que nos ajuda a não cairmos estando aqui fora é a constante lembrança daquilo que nos motivou para a partida. Se revisitarmos com frequência os sentimentos, se pararmos para pensar no que sentíamos antes de embarcarmos no avião, com certeza encontraremos mais e mais força.

Nós partimos para realizar os nossos sonhos e não para vivermos pesadelos, nós resolvemos recomeçar lá do outro lado do mundo porque sabíamos da nossa coragem. Se nós chegamos onde chegamos, foi porque dentro de cada um de nós existe uma energia e uma força que nos impulsiona e nos faz sermos quem somos. Ah e nunca se esqueça: TEM UMA GALERA LÁ DO OUTRO LADO DO OCEANO TORCENDO PELO TEU SUCESSO, PODE ACREDITAR.

Morar fora: excesso de ontem, excesso de hoje e excesso de amanhã.



Cláudio Abdo

Cláudio é brasileiro e mora em Portugal desde 2014. Mestre em Ciências da Comunicação, faz Doutorado em Estudos de Comunicação. Apaixonado por rock and roll, conheceu o beatle Paul McCartney pessoalmente. Sempre com uma boa história na ponta da língua, escrever é uma de suas paixões. Cláudio é autor do livro “Morar fora: sentimentos de quem decidiu partir”.

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